Em meados do inverno passado, numa edição especial da revista Líbero, Guille Galván, escritor e músico, refletia sobre a resistência em idolatrar alguém do seu tempo, do seu oxigénio. Diria, até, que lhe era difícil chamar de ídolo alguém cuja data de nascimento não impusesse o respeito convencional das gerações. Galván versava sobre Andrés Iniesta, num exercício de memória após a conquista do Mundial de 2010, por parte de Espanha, na África do Sul. Iniesta, autor do golo vencedor da competição, atravessara um período desgastante física e mentalmente, num ano marcado por várias lesões e por uma depressão que, à data, era pouco mencionada no mundo do desporto. Após a vitória, porém, a barreira da resistência de Galván caiu. A palavra ídolo perdeu o valor de entidade distante, quase mitológica, para se tornar algo mais palpável. Apesar de toda a fragilidade humana – ou talvez justamente por causa dela – alguém havia conseguido transformar a distância e o peso de um fardo em algo tão brilhante e relacionável como uma conquista coletiva e global.
Eu não sou escritor, músico ou compositor. Não sou sequer espanhol. No entanto, ao ler a reflexão de Galván, não consegui não associar aquele exercício a várias figuras que me são queridas. Embora adepto assíduo do desporto, a figura do futebolista nunca assumiu contornos de ídolo para mim – nem agora, nem quando era apenas um jovem minimamente consciente. À medida que amadurecia, mais distante esse estado foi ficando. Parece-me haver algo de desconcertante, quase invasivo, em reconhecer um mestre na contemporaneidade. Por outro lado, há algo de humano em aceitar que alguém do nosso tempo, atravessado pelos mesmos marcos e pelas mesmas vivências coletivas, consiga traduzir ou amortizar o caos e a harmonia de toda uma geração. É nesta luta de pedestais que surge Loyle Carner, músico e artista londrino; nesse contraste de proximidade, entre imaginá-lo num pub, em Londres, ou no sul de Portugal, entre laranjas, a narrar a sua próxima história.
Admirar Loyle Carner, ou Benjamin Coyle-Larner, não é um ato passivo de o colocar no pedestal falado anteriormente. É, antes disso, um exercício de reconhecimento horizontal. É alguém cuja data de nascimento não lhe confere o respeito convencional das gerações, mas sim um nivelar de admiração e inspiração contemporânea. É admirar não apenas a sua cadência ou dislexia criativa, mas principalmente a coragem política com que se desarma. À semelhança de Iniesta, na África do Sul, Carner fez das adversidades um instrumento de aproximação e humanização coletiva; do défice de atenção ao foco poético, do abandono parental à paternidade presente. Ao fim do dia, idolatrá-lo é também estranho. A admiração não vem da sua capacidade de ser um deus, mas, em rigor, da sua insistência absoluta em ser, visceralmente, um ser humano.
Esta condição humana, de resto, não foi uma escolha consciente na infância de Benjamin. Podemos questionar, até, se a sensibilidade é órfã do livre-arbítrio. Aqui, talvez. A infância de Loyle foi um exercício constante de tradução. Para um miúdo cujos desenhos figuravam em recibos de restaurantes ou em guardanapos usados, a realidade era, muitas vezes, um lugar de exclusão. A mente funcionava numa frequência difícil de sintonizar para a sociedade em geral. Para Jean, nem tanto. Professora para crianças com necessidades especiais, a mãe do músico não hesitou quando o pequeno Loyle foi diagnosticado, aos seis anos, com défice de atenção, hiperatividade e dislexia. Pelo contrário, encarou-o como uma oportunidade. “A minha mãe sempre me disse que a minha neurodivergência não era uma deficiência, mas sim um superpoder”, recordou mais tarde.
A própria Jean, voz ativa em várias músicas, narra a dificuldade em compreender como uma criança conseguia ver televisão no sofá, de cabeça para baixo, enquanto dava toques numa bola. Desse avesso, mais tarde, surge o nome artístico Loyle Carner – não de um alter-ego fabricado ou de uma estética orquestrada, mas do espelho de uma língua que tropeça. Ao inverter as consoantes do seu apelido real – Coyle-Larner – Ben transformou um obstáculo numa assinatura. Escudou-se no apelido, juntou vogais e consoantes como terapia e, muitas vezes ao lado de Jean, fez do microfone o seu intérprete.
Esta relação de mãe e filho, Jean e Ben, é uma marca de água constante no percurso de Loyle. Está naturalmente relacionada com o instinto materno e com a profissão de Jean, mas também com a necessidade de ambos. Se a mãe era o norte familiar e uma presença constante, Ben debateu-se sempre com o vazio de coordenadas deixadas pelo pai biológico. De ascendência guianense, o pai foi um ‘não-estar’ físico, mas omnipresente na cor da pele ou nas sombras do sul londrino. Em tenra idade, essas incertezas, porém, ancoraram no padrasto. Nicholson, apelidado carinhosamente de Nik, foi padrasto por circunstância, mas pai por inteiro. Apesar do afeto nem sempre se mostrar fisicamente, Nicholson foi a presença na ausência – até se tornar na mais ecoada das ausências. Durante a adolescência, entre aulas de cozinha ou listening sessions em família, Ben perdeu a única figura paterna que havia conhecido, vítima de uma morte súbita relacionada com um ataque epilético. De um momento para o outro, as coordenadas que ganhavam vida voltaram a fugir, obrigando Loyle a fazer do luto uma condição de sobrevivência. Largou a escola e, numa tentativa de se tornar o ‘homem da casa’, dedicou-se inteiramente à música.
A própria Jean, voz ativa em várias músicas, narra a dificuldade em compreender como uma criança conseguia ver televisão no sofá, de cabeça para baixo, enquanto dava toques numa bola. Desse avesso, mais tarde, surge o nome artístico Loyle Carner - não de um alter-ego fabricado ou de uma estética orquestrada, mas do espelho de uma língua que tropeça.
Dessa urgência, meses mais tarde, em 2014, nasce A Little Late. É a entrada de Loyle Carner no radar da indústria musical – não com um trabalho polido, mas com um grito contido em forma de EP. Escrito e gravado na humanidade dos seus espaços pessoais, é como uma confissão do chegar tarde demais a um adeus; o juntar das letras outrora perdidas como alívio da sua perda. São 18 minutos palpáveis: dos temas de uma adolescência de (des)amores, a BFG ou Cantona, músicas que narram não só a relação entre Ben e Nik, mas também a deste último com o Manchester United.
“So what, so what am I going to do now? There’s nothing left; stress pressing in my chest, until I’m puffing that cloud, feeling coming back around; Never loving that sound, it surrounds until I’m stuck in that ground; I drowned when you disappeared, I need you near, because I’m the boy but you’re the man, I can’t defeat the fear; sailing a sea of tears, sipping to be sincere; Steven need to keep it even until you re-appear, I need to keep it even until you re-appear; to keep it clear, I need to keep it even until you re-appear; everybody says I’m fucking sad, of course I’m fucking sad, I miss my fucking dad, of course I’m fucking sad, I miss my fucking dad”.
É sob a nudez destas linhas de BFG que Loyle Carner traça os novos passos do seu destino. Enquanto Londres rima sobre a hierarquia das ruas, Loyle rima sobre a hierarquia da perda. A Little Late não foi um sucesso comercial imediato, mas uma alternativa; um espelho para toda uma geração habituada a esconder-se entre armaduras. Além disso, foi também o oxigénio usado para Benjamin se legitimar sem ter de desculpar a sua tristeza.
E se o luto não é mais do que o amor que perdura, a metamorfose de Loyle Carner também não. A morte de Nicholson fragilizou o ambiente familiar e deixou um lugar vazio à mesa, mas nunca no modo como Ben passou a dar sentido a essa melancolia. A próxima etapa não foi a conquista das ruas ou dos clubes noturnos – embora possa ter acontecido, claro – mas sim um regresso ao calor do lar. Carner não quis ser apenas o homem das rimas sobre a perda, mas também o homem que ensina a encontrar o foco no meio do caos. Estava dado o mote para o álbum de estreia, mas também para um projeto que daria mais corpo à sua luta: a Chilli Con Carner, uma escola de culinária para jovens que, tal como ele, vivem com défice de atenção ou hiperatividade – um mundo de cabeça para baixo.
“Há uma monge coreana cujo trabalho é sobre meditação através da cozinha. Ela acredita que o teu corpo está tão ocupado com o que estás a fazer que não te distrais da comida”, começa por explicar, em entrevista ao Positive News. “Durante grande parte da minha infância, a minha vida foi somente com a minha mãe. Estar à mesa, rodeado de pessoas, foi sempre um lugar onde quis estar. Isto vem daí, de um amor pela comunidade, pelas pessoas”.
Esta paixão pela cozinha, herdada do avô, foi também um fator importante da luta de Ben contra a neurodivergência. Durante a promoção da Chilli Con Carner – que funciona essencialmente durante o verão, para jovens entre os 14 e os 18 anos – Loyle falou em como o facto de estar focado em várias tarefas ao mesmo tempo, a cozinhar, o ajudou.
“Em criança, era muito impulsivo e distraía-me facilmente. Era impossível concentrar-me e acabava por distrair os outros, principalmente na escola. Para mim, cozinhar acalma-me. Acredito que seja a conexão entre tudo, o cérebro foca-se em muitas coisas e não tem tempo para se distrair. Está comprometido na cozinha e não tem espaço para mais nada”, contextualiza, antes de explicar. “A ideia da escola surgiu através da minha própria experiência na cozinha e em como isso me ajudou. Pensei que talvez pudesse ajudar crianças e jovens na mesma situação. É um local onde os miúdos podem estar um dia ou uma semana, num sítio diferente da escola e sem a pressão de casa. Serem só eles próprios, sentirem-se bem e onde percebam que podem fazer outras coisas. Há muita negatividade associada ao défice de atenção e à dislexia – não podes ler, não podes escrever ou não te consegues focar. Há todos estes ‘não podes’, mas não há ninguém a dizer que podemos fazer outras coisas. Para mim, isso foi o mais importante: mostrar que, independentemente de tudo o que dizem que eles não conseguem ou podem fazer, há coisas que eles conseguem e podem fazer, como cozinhar”.
"É um local onde os miúdos podem estar um dia ou uma semana, num sítio diferente da escola e sem a pressão de casa. Serem só eles próprios, sentirem-se bem e onde percebam que podem fazer outras coisas. Há muita negatividade associada ao défice de atenção e à dislexia - não podes ler, não podes escrever ou não te consegues focar. Há todos estes ‘não podes’, mas não há ninguém a dizer que podemos fazer outras coisas. Para mim, isso foi o mais importante: mostrar que, independentemente de tudo o que dizem que eles não conseguem ou podem fazer, há coisas que eles conseguem e podem fazer, como cozinhar”.
É natural, por isso, que a primeira aparição verdadeiramente decisiva de Loyle Carner na indústria musical tenha acontecido rodeado das suas pessoas. É difícil precisar se aconteceu meses antes ou depois da inauguração da escola, mas, no início de 2017, Loyle Carner apresentava Yesterday’s Gone, o seu primeiro álbum de longa duração. A própria estética visual do álbum atesta, à época, a visão de Ben – não há aventais ou utensílios de cozinha, mas um jardim rodeado de família, amigos e pessoas importantes na vida do artista. Ao fundo, a fachada de uma casa que o sucesso musical ajudaria a pagar.
À semelhança dessa textura visual, a musicalidade do álbum é também revestida de veludo familiar. As melodias são quentes como um domingo solarengo; há pianos a respirar e, claro, a influência do padrasto em muitos desses beats. Ben chegou mesmo a encontrar um álbum produzido por Nik, e embora inicialmente lhe tenha faltado a coragem para o ouvir, acabou por usar alguns trechos no seu próprio disco. As letras continuam a narrar a sobrevivência mas, desta vez, dão também lugar ao documentar do quotidiano. Há diálogos com a mãe em Swear, temas para uma irmã que nunca chegou em Florence – uma das minhas favoritas – e, claro, os grandes êxitos Ain’t Nothing Changed e Damselfly, a meias com o também músico e amigo Tom Misch. É, no entanto, na parte final do disco que a relação entre mãe e filho volta a ganhar destaque.
Em Sun of Jean, a música que ‘fecha’ o álbum, Ben sobe as cortinas para a mãe. É o artista a abdicar da última palavra para deixar que a âncora que outrora segurou os desenhos, os tropeços e as letras perdidas conte a sua versão. Antes do poema de Jean, contudo, Loyle eleva novamente o conceito de família: descreve o peso sentido em ser o homem da casa após a partida do padrasto, a relação com o meio-irmão mais novo e, de forma natural, o orgulho desmedido na relação mãe e filho.
“I wasn’t running from the beast, I was running from myself; running out of street, she was worried about my health; wasn’t worried it was beef, wasn’t worried it was girls, she was worried it was me and my mother couldn’t tell; something bigger than the world; for me and Ryan, now he could see that I’ve been crying; tell a little lie and say there’s something in my eye and from the second I could see that I’ve been lying; he would think I wasn’t trying; telling him, look, honestly, I’m dying to be the bigger man, the one that you’re relying on; I keep it strong, so I tell another lie, ‘cause it’s the only way to keep me from denying; so I tell him, brother, listen, listen, when the sun doesn’t glister all the days turn grey and the love goes missing, hate won’t fade and the front row hissing, you’re the only one who keeps my heart wishing; (…) Call me the son of Jean, my little submarine; Me and my mother, there ain’t nothing that can come between”.
E se há momentos onde são os pais a abrir caminho para os filhos – como Jean fez na vida mundana – aqui seria Ben a preparar o auditório para a mãe escrever sobre si próprio e sobre o seu mundo por vezes virado do avesso. Em suma, sobre esse scribble of a boy.
“He was a scribble of a boy, all air and mischief; A two-foot tale of trouble, the bee’s knees; A cartwheeling chatterbox of tricks, completely fearless; I had to carry a first aid kit, my band-aid boy; I had my heart in my mouth wherever we went; He’d do backflips into the pool when he was tiny, and the lifeguards would get all stressed out; He was a proper Mowgli, he embraced everything; Took things apart to see what made them tick; Such busy fingers; He would empty sugar packets onto tables, in restaurants to draw pictures in; He used to draw on anything, fantastical creatures with ferocious fangs; And now he draws with words and I find lyrics on my till receipts and bills; He was never still and barely slept, so neither did I; I could never understand how he could watch tv upside down while kicking a ball; His eyes shone with wonder, music flowed through him like a current; He’d upend a stool to use as a microphone, singing away for his grandparents; He turned the world upside down and we’re richer for it; He was and is a complete joy; The world is his, that scribble of a boy”, ouve-se.
É comovente, de facto. A consagração de Yesterday’s Gone trouxe nomeações para o Mercury Prize, os BRIT Awards e os NME Awards em categorias como melhor álbum ou artista revelação, mas, essencialmente, trouxe a garantia de que a sensibilidade de Loyle Carner tinha lugar no panorama musical. Em 2017, a casa para nos receber à mesa; dois anos depois, a necessidade de sair dessa casa e conhecer o teto da própria personalidade.
Esse intervalo entre o aceno público e as experiências pessoais deu lugar a Not Waving, But Drowning, o segundo álbum de Loyle Carner. Resgatado de um poema de Stevie Smith, este título mostra não só como a transparência de Ben tinha atingido um novo ponto, mas também o contraste de quem muitas vezes parece estar à superfície, quando na verdade só tenta manter a cabeça fora de água. Decorado visualmente com fotografias tiradas pela namorada, o álbum, defende o próprio, era essencialmente sobre “otimismo”.
“Queria que fosse um álbum otimista. Apaixonei-me e saí de casa da minha mãe, por exemplo. Já consigo ajudar os meus amigos – ajudá-los a ganhar dinheiro com isto. É óbvio que isto são só coisas bonitas mas há sempre pressões envolvidas. Eu não quero dizer que fiz um ‘álbum feliz’, mas otimista. De esperança, é o melhor que consigo fazer”, descreve, em entrevista à Apple Music, antes de refletir sobre a realização da carreira e da vida naquele momento, apesar do dinheiro.
“Por que razão eu haveria de mudar enquanto pessoa? [Por causa de dinheiro, roupas, ou luxos]. Quando eu era mais novo, isto era o meu sonho: tenho uma namorada lindíssima, uma casa, estou a tratar de ter um cão… tenho uma bicicleta para andar pela cidade, posso nadar quando quiser; a minha mãe vive ao meu lado e agora tem um namorado novo – é um gajo porreiro. Isto é incrível para mim”, elucida.
É precisamente nesse círculo – em busca de uma nova personalidade e no encerrar do capítulo de casa de Jean – que Not Waving, But Drowning tem início e fim. Dear Jean e Dear Ben são poemas escritos de e para mãe e filho – não para encerrar um capítulo, mas para mostrar que, por mais capítulos que surjam, haverá sempre espaço para os dois.
“Dear Jean, I hope this doesn’t come as a surprise, but I’ve fallen for a woman from the skies and she is truer than the lies, truer than the prize (…) But this ain’t dying, it’s rising – like the big round orange or the horizon. I know it means I’m not about as much, but listen, I ain’t moving out as such; just moving half my clothes, maybe louder stuff; out the south, out the house, never out of touch; Trust, I don’t think I said it loud enough – I’m out the south, out the house, never out of touch; out of sight never out of mind”, escreveu Loyle.
“But the tears that streaked out our cheeks were stained with glee, because we knew that this was not a goodbye, that you’d be back, that you’d never really left, because love does not lessen by miles, it’s not locked out by doors or walls – but reinforced in thought and heart, it cannot be lost like a key or a sock, or left behind in a box; It is present in each and every breath and flows deep with every beat and deed; It may not be your presence but it’s your essence that remains, forever dancing like glitter in our air; And now it’s clear to me, my beautiful boy, as naked as the joy that caresses the creases of your eye, that you’ve finally found the one, your golden snitch, and my task is done. For I’ve gained a daughter, I’ve not lost a son”, respondeu Jean.
Se ainda havia dúvidas sobre o peso do eixo familiar na vida de Ben, estes dois poemas dissipam-nas por completo. Há ainda espaço para o disco se mover entre a intimidade doméstica, o amor e a comunidade: de Angel, filmado em Faro, a Loose Ends, com Jorja Smith, ou de Carluccio a Ottolenghi, nascida da confusão entre um livro de cozinha italiana e um livro religioso.
Apesar de todas merecerem uma leitura por si só, houve um tema cuja inclusão no álbum Loyle chegou a questionar, precisamente pela sua humanidade e pelas relações que o atravessam: Krispy. Aqui, Carner escreve uma espécie de carta ao músico e amigo Rebel Kleff – presente em A Little Late – de forma a que os dois possam resolver as diferenças que a vida lhes trouxe. É uma porta aberta para a discussão da saúde mental entre homens e da masculinidade tóxica – temas sobre os quais Ben tem tido uma voz ativa.
“Acho que as conversas que tenho depois dos concertos são o mais importante. Há uns dias recebi uma bonita mensagem de uma mulher - uma mãe aleatória, cujo filho tinha estado num dos concertos - a contar-me que tinha sido a primeira vez que o filho se tinha aberto sobre uns problemas e lhe tinha dito que estava magoado. É sobre isso. Sobre dar essa abertura a miúdos e homens mais jovens"
“Acredito que as coisas estão a melhorar gradualmente, mas, infelizmente, enquanto homem, ainda é quase impossível falar sobre os teus sentimentos sem te sentires julgado. Eu sinto que tenho usado a bandeira da abertura emocional e tentado explicar que, sendo vulnerável, estás a mostrar a tua força. (…) A música Krispy é sobre um dos meus melhores amigos e em como nós nos chateamos por questões de dinheiro, música e outros assuntos. Eu não conseguia simplesmente falar com ele para resolver o assunto porque, durante toda a minha vida, me foi mostrado que, quando há problemas entre homens, normalmente escalam até ao confronto físico ou até se cortar completamente a relação”, explica em entrevista à NME.
Esta não seria, no entanto, a única ocasião em que Benjamin – enquanto homem e artista – se inseria na luta contra a masculinidade tóxica. Em declarações à NME, desta vez na ‘passadeira vermelha’ do Mercury Prize de 2023, essa causa voltou a ganhar voz.
“Acho que as conversas que tenho depois dos concertos são o mais importante. Há uns dias recebi uma bonita mensagem de uma mulher – uma mãe aleatória, cujo filho tinha estado num dos concertos – a contar-me que tinha sido a primeira vez que o filho se tinha aberto e lhe tinha dito que estava magoado. É sobre isso. Sobre dar essa abertura a miúdos e homens mais jovens. (…) É engraçado porque uma página, nas redes sociais, partilhou um desses momentos num concerto e os comentários eram todos tóxicos, mas isso também me fez perceber o quão importante é defender estas causas. Esses miúdos provavelmente estão tão perdidos como eu já estive”, rematou.
De facto, essa sensibilidade foi sempre um traço de Ben. Apelidado várias vezes de Mr. Nice Guy do hip-hop britânico, o músico nunca escondeu a preocupação em crescer no mesmo compasso das gerações mais novas. Em entrevista à Apple Music, aquando do lançamento de Not Waving, But Drowning, Loyle foi questionado precisamente sobre esse rótulo.
“É dos maiores elogios que posso receber. É óbvio que vou mudando, até porque não faço isto tudo [música e outras coisas] para ser o mesmo. Espero tornar-me melhor pessoa. (…) [E o que te pode mudar ainda mais?] Assim que tiver filhos, provavelmente. Terei de crescer ainda mais. Espero que haja espaço para isso – aliás, tem que haver espaço para isso”, reiterou.
Este crescimento começou, entretanto, a ganhar contornos reais. Pouco depois de Not Waving, But Drowning, e já à espera do primeiro filho, a paternidade impunha-se como o próximo degrau – não apenas de vida, mas sobretudo de identidade. Ainda a lutar com a ausência do pai biológico e com o peso de ser mixed race num mundo onde as definições são exigidas, Ben foi forçado a olhar o passado pelo retrovisor. Para proteger a árvore que estava a plantar, era necessário não odiar as suas raízes.
Deste confronto com a herança nasce, em 2022, Hugo, o terceiro álbum de Loyle Carner. Ao odiar o pai pela sua ausência, Ben percebeu que odiava, por extensão, metade de si mesmo. Por conseguinte, odiava também metade do filho prestes a nascer. Esta urgência levou-o à reconciliação com o pai biológico. Loyle sentou-se no lugar do passageiro do VW Polo que habita a estética do álbum e, entre aulas de condução e silêncios pesados, Hugo – nome do carro – foi ganhando forma.
“Finalmente, ele ensinou-me algo para me dar mais liberdade. É também por isso que o álbum demorou tanto tempo – apesar de não ter sido pensado unicamente neste propósito. (…) Perto do fim das aulas, já só andávamos às voltas. É curioso que, quando passei no exame de condução, a minha reação foi a de que, agora, íamos ter de ter planos reais entre pai e filho – já não havia a desculpa das aulas. Tínhamos estado juntos por seis meses e eu ainda não conseguia olhá-lo nos olhos. Via todos os maneirismos que herdei e isso só me deixava mais ansioso. É um ponto que nunca vai estar fechado, mas está realmente numa fase muito melhor – é o máximo que posso pedir”, explicou Ben, aquando do lançamento do álbum, em entrevista à Hunger Mag.
"Perto do fim das aulas, já só andávamos às voltas. É curioso que, quando passei no exame de condução, a minha reação foi a de que, agora, íamos ter de ter planos reais entre pai e filho - já não havia a desculpa das aulas. Tínhamos estado juntos por seis meses e eu ainda não conseguia olhá-lo nos olhos. Via todos os maneirismos que herdei e isso só me deixava mais ansioso"
Em paralelo a essa relação com o pai biológico, Hugo foi também um manifesto público para o filho.
“Foi a necessidade de dar uma volta completa. (…) Eu era tão consciente de tentar fazer sempre o correto, de parecer calmo e ponderado, mas isso não é humano. Isto não é necessariamente a apresentação do meu ‘lado negro’, mas [reconhecer] os maus momentos também. É normal. É aceitar isso e não me coibir de criar pela reputação ou responsabilidade de inspirar outras gerações. Esteve relacionado com o nascimento do meu filho, onde senti que tinha de ser completamente honesto – um reflexo de mim próprio. É não temer o que os outros possam pensar ou julgar. Eu preciso que o meu filho cresça consciente de que está tudo bem em ver a beleza nos maus momentos; que está tudo bem em não ser perfeito”, referiu no podcast Tape Notes.
É precisamente essa honestidade vulnerável que abre o álbum. Em Hate, a primeira música, Loyle despe a pele de Mr. Nice Guy e deixa o medo assumir o volante – medo da polícia, do sistema, da cor de pele e o medo de não ser suficiente.
“Let me tell you what I hate (…) Yes, I fear the colour of my skin, I fear the colour of my kin; I still feel the colours that’s within; (…) They said it was all that you could be if you were black, playing ball or maybe rap, and they would say it like a fact”, ouve-se.
Essa crise de identidade atravessa o disco e encontra em Nobody Knows um dos seus pontos mais expostos. Entre a ausência do pai e o peso de não pertencer por inteiro a lado nenhum, Loyle questiona-se não apenas sobre quem é, mas sobre o que herdará o filho que está prestes a nascer.
“I told the black man he didn’t understand, I reached the white man and he wouldn’t take my hand; (…) So who am I? I’m asking, who am I? (…) You can’t hate the roots of the tree and not hate the tree, so how can I hate my father without hating me?”, questiona.
Para lá deste confronto íntimo, Hugo expande-se também geograficamente e emocionalmente. Em Georgetown, Loyle regressa a Guiana – às origens do pai – numa tentativa de compreender o lugar que ocupa entre heranças; noutros momentos, como Speed of Light, Homerton ou Blood on My Nikes, o álbum oscila entre a perda de confiança, a necessidade de reconstrução e o peso das ruas de Londres. Há ainda espaço para respirar em A Lasting Place, onde a reflexão se torna mais silenciosa e íntima – quase doméstica.
Antes do desfecho, todavia, surge Polyfilla. Remetendo para a massa usada para tapar fendas nas paredes, é a metáfora do esforço de Ben em manter as aparências enquanto as estruturas internas cedem. Em Hate, a explosão; aqui, a manutenção.
“Because there’s holes in every wall and now there’s holes in every wall; (…) I hold my son, I’ve been trying to play it cool, but I’m the villain in the story, the exception to the rule; Did the pressure bussed a pipe, build a diamond? The anger puts a fella on an island; Yes, you hear the band and feel the silence but you know I’ve been trying”, pode ouvir-se.
Nesse movimento de reconstrução surge HGU, o ponto final do disco. Longe do encerramento absoluto, é aqui que Loyle ensaia o perdão – não como absolvição da ausência, mas como condição necessária para não a perpetuar. Ao repetir “I forgive you” continuamente, Ben deixa de falar sobre o pai para, por fim, falar com ele.
“I forgive you, I forgive you, I forgive you, ‘cause I know that’s within you and I’m better when I’m with you; Trying reconnect as we begin to understand the reasons that you’re sinful, ‘cause Earth is evil; ‘cause hurt people hurt people, especially the ones who weren’t equal (…) That life is lethal, watching story repeat itself so I can rewrite the ending and the prequel and figure out the but in the middle until it keeps all of my people together and living peaceful; Trust, ‘cause ain’t no Jack and ain’t no beanstalk; ain’t no fairy tales places we walk but we fought; Just for this, just for smiles that he brought; Still I’m lucky, yes, that we talk”, ecoa.
Cru, dirão. Este processo, porém, não habitou apenas no estúdio. Foi no palco que Hugo encontrou uma forma mais plena. As músicas deixaram de ser apenas confissões individuais para se tornarem espaços coletivos de partilha, onde a humanidade ganhava eco. As atuações deram lugar a catarses coletivas e mostraram ser possível encher arenas sem sacrificar a intimidade. Aliás, fazendo dessa intimidade o verdadeiro bilhete de entrada.
Se foi no palco que essa proximidade ecoou, foi fora dele que Ben teve de aprender a habitá-la. A abertura de transformar vulnerabilidade em arte foi sempre uma das marcas de Loyle Carner, mas havia agora, novamente, um capítulo ainda por viver: lidar diariamente com as consequências dessa mesma abertura. É nesse intervalo – entre o homem que se expõe e o homem que se mantém – que nasce hopefully !, o quarto e, até agora, último álbum do artista.
Lançado em 2025, o álbum surge essencialmente como consequência, um regresso à superfície após a viagem às raízes da identidade. Após os confrontos com o pai, o medo da cor de pele, do sistema e da herança, Ben foca-se menos em descobrir quem é e mais em perceber como permanecer quando alguém passa a depender dele.
“Precisava de não me levar tão a sério”, começa por dizer, em declarações à Apple Music. “Estou a aprender a fazê-lo, lenta e gradualmente. (…) Estive muito tempo com o meu filho no estúdio e vivíamos apenas o momento. Quando estamos com crianças, elas são a única coisa que importa. Deixa de haver presente, passado ou futuro”, acrescenta.
É num desses momentos que a textura visual de hopefully ! ganha forma. Enquanto o filho de Ben lhe desenha na cara, o registo é captado pela namorada. “Aquilo que é bonito na imagem é que é impossível dizer se ele me está a confortar ou se sou eu a confortá-lo. Penso que seja o núcleo da nossa relação: é ambíguo, mas quem cuida de quem?”, questiona.
Essa dúvida e presença infiltram-se, naturalmente, na própria matéria do álbum. Em feel at home, tema de abertura, ouve-se um som captado enquanto o filho de Ben brinca num parque, tornando esse registo o ponto de partida do disco, como extensão do quotidiano; em hopefully, por exemplo, a voz do filho ecoa ao longo da música, repetindo “echo” debaixo de uma ponte, num passeio de bicicleta entre pai e filho. É a tradução mais simples daquilo que o álbum procura – guardar memórias e prolongar ligações.
Mais do que um disco sobre a paternidade, hopefully ! é um exercício de continuidade. Em horcrux, Loyle sugere ter depositado “as melhores partes de si” nos filhos; em about time, a música que fecha o disco, o movimento é outro: funciona como o reconhecimento da necessidade de parar e permanecer. Após os confrontos com o passado, é tempo de viver a própria pele, aceitando que crescer, agora, é também cuidar.
“Foi especial [a receção ao álbum]. Eu acredito que na música – ou noutra forma de arte – estamos sempre a tentar aproximarmo-nos daquilo que realmente somos. Eu senti que, até agora, este disco foi a representação mais próxima de mim próprio. Saber que há alguém que gosta e aprecia isso, faz-me sentir suficiente”, afirmou, em declarações à NME, na abertura dos Brit Awards de 2026.
Talvez seja nesta humildade – a de todos nos sentirmos suficientes – que a reflexão de Guille Galván encontra um novo lugar. A resistência em idolatrar alguém do nosso tempo não desaparece – apenas muda de forma. Já não se trata de admirar figuras distantes, protegidas pela erosão do tempo, mas de reconhecer, na proximidade, aquilo que nos devolvem. Andrés Iniesta fê-lo num instante que parecia irrepetível, condensando anos de superação física e mental numa bola projetada por uma nação inteira. Loyle Carner fá-lo de outra maneira: num percurso contínuo e posto a nu, onde a fragilidade deixa de se esconder e começa a integrar-se; onde os estágios de filho, pai e homem são somente camadas que coexistem e se reescrevem.
No final do dia, seja no desporto, na música ou em qualquer outra vertente, idolatrar alguém do nosso tempo talvez não seja olhar para o pedestal, mas aceitar vê-lo como um espelho – como uma oportunidade de errar, de crescer e de permanecer. Se outrora os ídolos eram definidos pela distância, talvez hoje o sejam pela capacidade de nos aproximar dos outros e de nós próprios; de nos lembrar que, no meio de tanto ruído, ainda é possível habitar quem somos.
As imagens têm os seguintes créditos, pela ordem de entrada no artigo:
1. Concerto Royal Albert Hall: New Wave Mag
2. Ben e Jean: Facebook Oficial de Loyle Carner
3. Chilli Con Carner: Vicky Grout / Positive News
4. Yesterday’s Gone (Capa): Spotify
5. Peça sobre Loyle Carner: Silent Radio
6. Not Waving, But Drowning (Capa): Spotify
7. Loyle e Amigo: Website Oficial de Loyle Carner
8. Hugo (Capa): Spotify
9. Concerto Hugo Tour: Karolina Wielocha, Diogo Lopes ou Felix AAA / Unlimited Dream
10. Concerto Royal Albert Hall: Diogo Lopes ou Michael Fung / Unlimited Dream
11. hopefully ! (Capa): Spotify
Todas as fontes e citações encontram-se referenciadas e hiperligadas ao longo do texto.
Related
pressings. panopticon
há no disco qualquer coisa que não é apenas música. há um peso constante, quase…
pressings. series
é aqui que nascem as pressing series. se a música já habita em nós sem…
unlearning. knxwledge
knx é como um abraço apertado entre a criatividade e a versatilidade. as raízes…