Sem ter a ‘ginga’ comum dos jogadores brasileiros nem tampouco as suas célebres alcunhas, Cristiano Ronaldo – o nosso – é também um verdadeiro fenómeno. Dentro e fora de campo. De um tamanho incalculável. Dentro e fora do relvado. A transferência para a Juventus, oficializada esta terça-feira, dia 10 de Julho, é mais um marco assinalável na carreira do melhor jogador português de que há memória. Há tempos – na altura da faculdade, confesso – escrevi num artigo uma citação da qual não me recordo o autor, mas que vou citando vezes sem conta: “O futebol não é apenas um jogo”.

É oficial. Cristiano Ronaldo vai ser jogador da Juventus para as próximas quatro temporadas, onde irá receber cerca de 30 milhões de euros por cada uma delas. Aos 33 anos – qual velho – custou 100 milhões de euros a uma equipa que, sejamos francos, tem sido exímia nas contratações que faz ao longo dos anos.

É contraditório – e simplório até – definir Ronaldo através de números. De um lado da barricada estão os gestos técnicos, movimentações e correrias desenfreadas – agora mais raras – que ridicularizam as estatísticas;  do outro, aqueles dados que têm valido Bolas de Ouro atrás de Bolas de Ouro e que ajudam a explicar o sucesso de Cristiano.

(Este artigo vai estar repleto de visões um pouco contraditórias, talvez. Mas se para nós, portugueses, o nosso maior símbolo desportivo também o é, esse não é um assunto que me rale consideravelmente, mas que ainda assim valeu a referência.)

Em nove temporadas em Madrid, perderam-se os números aos recordes que bateu. E como a transferência só é possível a nível de clubes, não vou, sequer, entrar em detalhes estatísticos ao nível da Seleção Nacional. O que é facto – para não entrar em discussões ‘sem sentido’, se é que as há – é que, ao serviço do Real Madrid, Cristiano Ronaldo marcou 451 golos em 438 jogos.

Foram nove épocas onde só venceu dois campeonatos de Espanha, duas Taças do Rei e duas Supertaças Espanholas. É ‘manifestamente’ pouco para um clube com a dimensão dos ‘blancos’, mas, por outro lado, as conquistas internacionais invejam qualquer clube: quatro Ligas dos Campeões – três consecutivas – e três Supertaças Europeias, sendo que não vai disputar a próxima, frente ao Atlético de Madrid.

Cristiano Ronaldo com cinco Bolas de Ouro, cinco vezes eleito o melhor jogador do mundo

Poderia perfeitamente romantizar o jogo estético de Cristiano Ronaldo. Falar da classe com que se movimenta dentro e fora da área, ou de como cabeceia a bola onde muitos jogadores nem sonham chegar com as mãos. É verdade, poderia, mas eu avisei que isto ia ser contraditório.

A nível individual, Ronaldo descreveu estes nove anos como, provavelmente, “os melhores da sua vida”. Quatro bolas de Ouro, melhor marcador de sempre da Liga dos Campeões e, para mim um dado que merecia mais expressão, o melhor marcador do Real Madrid. Do Real Madrid! Daquele que é, porventura, o maior clube do mundo e, por conseguinte, o clube com mais história. Aliás, os títulos internacionais não mentem.

É também nesses dados que (o nosso) Ronaldo é um fenómeno. Ao assinar pelo gigante espanhol, agigantou ainda mais o clube. Seguiram-lhe praticamente os dez milhões de portugueses que torcem por ele – dez não, mas uns oito é bem provável. Além dos tradicionais Porto, Benfica e Sporting, os adeptos portugueses ganharam um novo clube, o clube onde Cristiano se tornou no melhor jogador do mundo em quatro anos distintos.

O que realmente importa neste raciocínio de amor/ódio a Cristiano Ronaldo e ao Real Madrid é o que dá razão ao título deste artigo, em muitos e diferentes sentidos.

Ao sair da capital espanhola, rumo a Turim, Ronaldo leva consigo uma legião de fãs e admiradores. Por outro lado, o Real Madrid perde um sem número de adeptos para os quais, em última instância, o “clube é uma merda”, mas que se sentiam como que obrigados a torcer por eles porque, afinal, estava lá “o maior símbolo do futebol português” – isto no nosso caso concreto. É verdade que o adepto tuga vive apaixonada e orgulhosamente as conquistas dos seus, mas há patriotismo e patriotismo.

Certo é que a sua transferência – pese embora a admiração dos comuns mortais – impulsionou a Juventus no mercado. Na data em que o craque português foi oficializado, as ações da ‘Vecchia Signora’ dispararam 35 por cento, o que se traduz em nada mais nada menos que 240 milhões de euros.

É o fenómeno Cristiano Ronaldo. Sem ter a ‘ginga’ comum dos jogadores brasileiros nem tampouco as suas célebres alcunhas. (O filho já é um caso diferente.)

É também sob esse prisma que este fenómeno vai originar a típica roda vida da ‘silly season’ desportiva. O Real Madrid, sempre sob a expressão galática, terá de juntar aos seus quadros um jogador de encher o olho. Neymar, Mbappé (não, por favor) ou Hazard são os cabeças de cartaz de um festival de verão que só vai terminar com o fecho do mercado. Por outro lado, a Juventus poderá querer ‘livrar-se’ de alguns pesos pesados – Higuaín, por exemplo. (Quando escrevi “pesos pesados” não pensei em traçar analogias, mas assim que digitei “Higuaín” percebi que fazia sentido. Eu que até sou um admirador do argentino.)

A verdade é que a saída de uns significa a entrada de outros. Seja no Real Madrid, no Paris Saint-Germain, no Chelsea, no Manchester United ou na Juventus. Fica a gélida sensação do que poderia ser ver Cristiano e Buffon na mesma equipa, a erguer a tão desejada Liga dos Campeões para o guarda-redes e o troféu predileto do português. Eles que este ano protagonizaram um duelo histórico, que terminou com Ronaldo a ser aplaudido de pé por aqueles que serão, agora, os seus maiores adeptos.

Cristiano Ronaldo a agradecer a ovação aos adeptos da Juventus, ainda ao serviço do Real Madrid

Os fenómenos acontecem. Acontecem e tender a ser imortais e intemporais. Em muitas ocasiões, digo que nós não temos consciência do que a palavra, jogador ou marca Cristiano Ronaldo significa. Não temos e vamos demorar muito tempo até percebermos isso.

Para já, e para a eternidade, fica a certeza de que Cristiano vai singrar em Turim. Em Turim, na Baviera, ou noutro qualquer lugar. Porque ele é assim. É o exemplo de superação, de trabalho, de ambição e dedicação que tanto orgulha o povo português.

O futebol pode não ser apenas um jogo. Mas para nós, portugueses, futebol será sempre Cristiano Ronaldo. Seja ele um fenómeno ou não. Dentro ou fora do campo.

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