A história recente do Sporting será sempre associada a um nome: Bruno de Carvalho, o presidente eleito pelos sócios e com poderes reforçados durante anos que se sentou na ‘cadeira de sonho’. As últimas linhas que tocam o antigo líder e o clube de Alvalade não permitem antever um regresso de um dos dirigentes mais marcantes do futebol português à chefia do leão mas, enquanto isso, há um outro Bruno que, à imagem do antigo presidente, reclama para si toda a atenção no seio Sportinguista. De camisa oito nas costas, Bruno Fernandes mostra que todas as histórias têm um final feliz, cabe ao leitor atentar nos pormenores que importam.

As peripécias de Bruno de Carvalho, principalmente de maio até então, não merecem, da minha parte, um descortino rigoroso. É uma matéria que cansa de tão gasta que está, mas que continua a despoletar as mais diversas opiniões entre adeptos de futebol – sejam eles do Sporting ou de qualquer outro clube, principalmente português. Saiu pela porta pequena – do seu tamanho, permitam-me – ainda que tenha logrado muitos objetivos para o clube, essencialmente a nível das modalidades.

Apesar do (merecido) crédito, o Sporting entra, outra vez, num ciclo novo: novo treinador, novo presidente, as tradicionais entradas e saídas de jogadores e, mais importante, um novo olhar por parte dos seus adeptos e de quem gosta verdadeiramente de futebol – qual Freitas Lobo.

Entre a tristeza de ver sair nomes como Rui Patrício, William Carvalho ou Gelson Martins, a situação de Alvalade esteve, na gíria, ‘por um fio’. Ainda que eu não tenha memória de outras medidas de Sousa Cintra à frente do Sporting, e sendo a sua figura unânime ou não, o agora presidente da SAD verde e branca conseguiu resgatar dois jogadores que prometem encher de orgulho os sportinguistas: Bas Dost e Bruno Fernandes, sem desprimor por Battaglia, que não sendo um craque é um jogador que aprecio particularmente – mais quando está sem bola.

A nova temporada arranca nublada, com dúvidas de quem e como será este novo Sporting. É ainda cedo para traçar linhas de personalidade coletiva, ainda que individualmente as apresentações sejam desnecessárias. Em Setembro virá um novo líder, alguém que, no seu entender, terá a solução para todos os problemas que os verde e brancos atravessam fora das quatro linhas.

Escrevo fora das quatro linhas, ou do relvado, porque dentro dele há já quem se assuma como a solução, a certeza, como um farol que promete conduzir um plantel pelas águas turvas que poderão marcar este novo ciclos: Bruno Fernandes.

Deixem que seja este Bruno a assumir o leão. Ou a libertá-lo, se quiserem, para que a sua determinação e fome de vitória sejam o cartaz de apresentação de um clube que, desde maio, seguiu numa bandeja para toda a gente, pronto a ser devorado.

Do Boavista até ao Sporting, a escalada de Bruno Miguel Borges Fernandes foi feita a pulso. Andou por Itália, onde conquistou muitos adeptos e companheiros de equipa, para quem era um perfeito miúdo e desconhecido. Se Bruno Fernandes menciona Di Natale como o craque que sempre recordará, companheiros na Udinese, o mítico avançado italiano recorda o médio como “irritante”.

“O Bruno Fernandes irrita-me porque é jovem e é o que tem mais qualidade entre todos nós. Tem uns pés incríveis, mas às vezes acomoda-se durante os jogos”, afirmou Di Natale, em 2013.

Após três anos na ‘Udine’, contratado ao modesto Novara, o médio português rumou à Sampdoria, num verão onde o seu nome surgiu apontado ao FC Porto.

Jogar num grande português foi sempre um desejo para Bruno Fernandes, sendo que o médio chegou a revelar, em entrevista o Mais Futebol, que não tinha preferência por nenhum deles, mas que era um convite que aceitaria com tranquilidade e confiança.

A proposta aconteceu e Bruno Fernandes chegou. Chegou, viu e venceu. Em 58 jogos realizados pelo Sporting, apontou 16 golos e um valor considerável de assistências. Mais do que os números, Bruno Fernandes personificou o leão. A ‘comodidade’ que Di Natale falou ainda lá está mas, agora, com a consciência do próprio médio que, a nível de qualidade, é, efetivamente, superior aos restantes.

A apresentação da sua rescisão unilateral de contrato, na sequência dos ataques à Academia de Alcochete, assustou e irritou os adeptos sportinguistas – chegaram mesmo a insultá-lo nas redes sociais – mas, em contraponto, esperançou a de todos aqueles clubes aos quais o sou nome foi associado.

No final, regressou pela porta grande. Dir-me-ão, com (alguma) razão, que o seu discurso de regresso estava ensaiado; que mesmo que não tenha recebido um aumento salarial para continuar a servir o leão, essa proposta de renovação aparecerá até ao final da época; que fez o maior papelão da sua carreira; mas, sublinhe-se, fê-lo!

Bruno de Fernandes voltou. E voltou com uma certeza: venho para ser capitão, para liderar, para personificar este leão, um clube que tem tanto de gigante como de adormecido (Olá, Snorlak).

A temporada arrancou no passado fim-de-semana. Na jornada inaugural, numa deslocação difícil a Moreira de Cónegos, Bruno Fernandes marcou o golo do empate e serviu superiormente Bas Dost para o ponto final no encontro.

Valeu ao Sporting pelos três pontos mas, mais importante do que isso, valeu pela certeza de que esta dupla é mais do que capaz de fazer o leão rugir.

Dêem-lhe a braçadeira ou a liberdade mas, por favor, deixem ser este Bruno a comandar o Sporting.

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