A premissa de que a ‘despedida chega para todos nós’, como já diversas vezes aqui escrevi, ganha expressão a cada temporada que passa. A homenagem ‘pós-morte’ parece eternamente supérflua mas, como uma pessoa de lugares-comuns, é nesse momento que a chama da vela queima mais intensamente. A despedida do ‘Pequeno Príncipe’ acontece de forma agridoce, com a rescisão amigável para um dos últimos homens românticos no futebol, que eu desejava ver retirar-se ‘apenas’ com uma camisola, a da Juventus. Até breve, Marchisio.

As histórias de amor são cada vez mais raras no futebol, neste desporto que agora, com bastante frequência, mais se assemelha a uma indústria. Uma das minhas últimas esperanças dava pelo nome de Claudio Marchisio, um jogador para quem a equipa vinha sempre em primeiro lugar.

Nascido e criado em Turim, o ‘Pequeno Príncipe’ chegou à academia da Juventus quando tinha apenas sete anos. O romance durou 25 anos, 24 dos quais com a camisola bianconera – em 2007/08 esteve emprestado ao Empoli – e terminou esta sexta-feira, com uma rescisão de contrato amigável.

Marchisio chegou à Vecchia Signora com a ilusão de seguir os passos do seu ídolo, Alessandro Del Piero, mas não esperava que o fizesse literalmente. Depois das despedidas do antigo número 10 e, mais recentemente, de Gigi Buffon, Claudio era a esperança de se retirar na equipa do seu coração, com uma (mais do que) merecida homenagem por 25 anos de compromisso e dedicação.

A alcunha traduzia-se na cara de miúdo ingénuo com que chegou ao clube mas, mais importante, por a sua família fazer parte da realeza de Turim. As idas ao estádio eram um ritual para o pequeno Marchisio, que chegou a ser apanha-bola no antigo e já demolido Del Alpi.

A mudança de trás da baliza para o centro do terreno aconteceu num ápice. Marchisio ambicionava jogar nas costas do avançado – qual Del Piero, o verdadeiro trequartista – mas o seu espírito de sacrifício transformaram-no num médio centro completo e, até às fatídicas lesões, num dos melhores do mundo.

A velocidade com que percorria o campo todo era contagiante, fosse pela energia que colocava na recuperação de bola ou, mais vistosa, pela classe com que a fazia fugir do guarda-redes. A sua técnica, visão e leitura de jogo tornaram-no num dos médios que mais admirei. (Daí este artigo.)

Despediu-se da Juventus na passada sexta-feira, um dia antes de arrancar a nova temporada, um dia antes da estreia de Cristiano Ronaldo pelo emblema italiano.

“Hoje termina a história de Claudio Marchisio na Juventus depois de aceitar a rescisão do seu contrato. Foram 25 anos desde que Claudio vestiu esta camisola pela primeira vez. Era um menino de só sete anos, com um desejo louco de jogar na equipa da sua cidade e com a cabeça cheia de sonhos”, escreveu o clube.

“Ter podido acompanhá-lo durante a sua carreira foi um privilégio e uma honra. Será um prazer continuar a segui-lo, qualquer que seja a camisola que vista. Porque sabemos que o branco e preto vão ser sempre uma parte dele e da sua história. Obrigada por tudo, Claudio”, pode ler-se ainda.

Marchisio vai vestir outra camisola. Fá-lo-à com a mesma determinação e espírito de sacrifício que o caracterizam, na mesma linha com que passeia superiormente pelo relvado.

Despede-se depois de 25 anos, 389 jogos, 37 golos, 42 assistências, sete títulos de campeão e quatro taças de Itália.

A sua vida foi escrita a preto e branco, no mesmo tom que usou durante todo este período. Sai, como o próprio descreve, “convencido que o bem da equipa está em primeiro lugar, sempre”, no momento onde iria recolher o maior número de fãs.

A Serie A vai ser a atração desta temporada – obrigado, Ronaldo – mas perdeu um símbolo tão gigante quanto a sua ligação à Juventus.

A verdade é que, para mim, as verdadeiras histórias de amor nunca morrem. Obrigado e até breve, Marchisio.

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