A melhor maneira de definir a última gala da FIFA é, numa palavra, polémica. A melhor e a mais sensacionalista também. Modric terminou com o reinado de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, os vencedores de (quase) todos os prémios individuais dos últimos dez anos. A generalidade dos entendidos do futebol, com ‘status’ para participarem nestas votações, decidiram que era altura de dar uma ‘lufada de ar fresco’ neste desporto. Esqueceram-se, porém, pelo menos em Portugal, que a nossa voz tem vários tons, mas a insatisfação é um dos que toca mais alto. E nós, portugueses, esquecemos que foram estes tais vigaristas que deram cinco destes troféus a Ronaldo. Mas afinal, é assim tão descabido que Luka Modric tenha sido eleito o ‘melhor do mundo’?
A notícia de que Cristiano Ronaldo não estaria presente no evento deixava antever uma mudança de paradigma, confirmada no final da gala, com a vitória de Modric.
Esta vitória é refrescante por alguns motivos, e não somente pela mudança de nome – ou dois nomes – ao fim de 11 anos. É, precisamente, por não ser mais sobre o nome. Pese embora que Cristiano e Messi sejam, sem dúvida, dois dos melhores jogadores da história do futebol e merecedores de todos os prémios que arrecadaram (até este ano o seriam), há outros talentos que devem ser reconhecidos, seja pela sua própria superação ou pelo que essa superação dá à equipa.
A dupla de astros via sempre o seu nome nos boletins de voto, fosse pelos golos marcados ou pelo estrelato que já tinham atingido. Modric estreou-se a vencer, recompensado pela sua influência mais ampla num determinado ano competitivo.
É verdade que os golos de Ronaldo revelaram-se decisivos na campanha do Real Madrid na Liga dos Campeões – apesar de ter ficado em branco nas meias e final – mas Modric terá sido, porventura, o jogador mais influente dos ‘merengues’, cuja capacidade de passe, controlo e gestão de ritmo de jogo marcaram profundamente a filosofia da equipa. Toni Kroos merece, obviamente, uma palavra de apreço, mas isto é apenas o reconhecimento do talento do croata.
Semanas depois, a maior prova do futebol e o mesmo Modric. A Croácia surpreendeu no Mundial’2018, na Rússia, com o médio a liderar uma equipa entusiasmante, que conquistou milhões de adeptos – incluindo nós, portugueses, rendidos ao seu talento.
A camisola 10, apertada numa manga com a braçadeira de capitão, ‘despachou’ a Argentina com um golo fantástico; apareceu nos momentos-chave para a marcação das grandes penalidades, mesmo tremendo numa ocasião; mas deu a resposta que vem dos primórdios do futebol – e aqui entra a minha opinião – de que o meio-campo é a zona do terreno mais importante.
Ganhar o centro do terreno, é ganhar o controlo do jogo. Se tens Modric nesse centro, o controlo é ‘absoluto’.
É preciso recuar até 1990 para ver um médio centro puro vencer um prémio desta magnitude – Lothar Mathaus. Falo de médio centro puro, daqueles que recuperam e atacam como se fosse a mesma função, e sempre fazendo-a bem, não organizadores de jogo ou que atuam preferencialmente atrás do avançado.
A atribuição destes prémios, espero, passou a ser também sobre substância e não só sobre ‘estrelas’. É o que torna esta vitória ainda maior que o seu desempenho, reforçada pela sua idade, curiosamente superior aos dois vencedores anteriores.
A nova era de se premiar jogadores de futebol pode estar apenas no início. Messi e Ronaldo ainda dominam o jogo, mas desta vez ele foi pautado por Modric.
Esta tinha sido a melhor maneira de terminar o artigo mas, como eu disse em cima, a última gala da FIFA surge de braço dado com a polémica, principalmente para nós, portugueses. A minha revolta, porém, não se prende com a não vitória de Ronaldo, mas sim com a nossa reação.
De um momento para o outro, a FIFA é a instituição mais vigarista que existe, com corrupção estampada em cada corredor e que está a ‘fazer a cama’ a Ronaldo. Mas foi ela que, nos últimos dez anos, distribuiu merecidamente dez títulos de ‘melhor do mundo’ a Cristiano e Messi – inclusive quando todos os adeptos de futebol pediam um reconhecimento a outros jogadores, com Iniesta à cabeça.
A lógica não é mais que a da batata, que José Manuel Ribeiro, colunista no jornal O Jogo, descreve na perfeição: “Qualquer outra atitude que não seja de respeito eterno pelos prémios da FIFA é uma infantilidade, ainda que Ronaldo tenha todo o direito de ser infantil”. Ele e quem gere a comunicação do seu museu, no Funchal.
À parte disto, Modric emocionou muitos adeptos de futebol com a conquista da última segunda-feira. É um justo vencedor, ainda que hajam muitos milhões de portugueses que se mostrem revoltados pela ‘derrota’ de Ronaldo.
Mas Modric, se me ouvires e como se isto fosse importante, não te preocupes, eles adoram-te de qualquer maneira.
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