Em miúdo ouvia frequentemente a típica piada de “quantos lados tem uma bola de futebol?”. A minha ingenuidade não me permitiu adivinhar perante a primeira pergunta, mas, à medida que os ‘engraçadinhos’ – nos quais me incluo, valha a verdade – a repetiam vezes sem conta, a resposta era pronta. “Dois. O de dentro e o de fora”, atirava. Andar com a bola debaixo do braço era, instantaneamente, um sinónimo de libertação e felicidade; mas a questão dos lados da redondinha foi ganhando novos significados, acompanhados pelo crescimento da paixão pelo futebol. Durante a última (fim de) semana, a ‘típica piada’ voltou à ordem do dia. Porém, agora com um verdadeiro significado. A bola tem, realmente, dois lados – o de dentro e o de fora, em múltiplos sentidos.

Nunca me pronunciei publicamente sobre os trágicos acontecimentos de Alcochete – publicamente neste sentido, já que partilhei muitas vezes a minha opinião sobre o assunto. Além do terror óbvio que aqueles atletas sentiram ao verem cerca de 50 (supostos) adeptos encapuzados romperem Academia adentro, impera sempre a pergunta: porquê?

A bola, mais uma vez, mostra um lado que infelizmente tem feito as últimas manchetes. Principalmente em Portugal. Foi uma época onde o ‘futebol’ foi mais discutido fora do terreno do jogo. Cá é assim, infelizmente. Gosta-se mais de clubes do que do futebol, o que não é, de todo, a opção mais correcta.

Sem querer atribuir culpas sem total conhecimento de causa – parece que será abafado durante muito tempo – aquilo que aconteceu não dignifica em nada o futebol português, por sinal campeão da Europa e com o melhor jogador do Mundo. Mas, mais do que a imagem de Portugal escurecer perante a imprensa internacional, a instituição Sporting Clube de Portugal ficou completamente negra, sem vida, sem cor. O pior acontecimento da história de um clube que tem mais de cem anos, muitíssimos troféus e uma reputação mundial.

Ainda que as opções clubísticas difiram entre os dez milhões de habitantes no nosso país, quem for verdadeiramente adepto futebol – quase parafraseando Luís Freitas Lobo e sublinhando a ideia acima – não pode ficar indiferente a tamanha atrocidade. Um sem fim de personalidades comentaram o caso durante muito tempo, com um novo episódio diário a merecer críticas de todos os sentidos.

A história ‘acabou’ com o pior do desfechos para o Sporting – veremos se não terá sido melhor assim, convenhamos – mas com o mais feliz para o futebol.

Perante milhares de adeptos, naquela que é a verdadeira ‘festa do futebol’, o Desportivo das Aves venceu a Taça de Portugal. A primeira na história do clube, a primeira para um treinador que passeia pelos campeonatos portugueses há muitos anos.

José Mota. O homem “com mais de 600 jogos em Portugal” e que, momentos após a conquista, não conteve a emoção. “É o dia mais feliz da minha vida”, admitiu.

A Vila das Aves festejou efusivamente a histórica conquista – não era para menos, convenhamos. A difícil semana do Sporting ofuscou-os antes da final, mas no domingo, no Jamor, ganhou o futebol. Justo ou não, quem ganhou foi o futebol.

As redes sociais ficaram inundadas em comentários e fotografias que sublinham a felicidade da conquista dos típicos underdogs, as equipas que, por mais pequenas que sejam, se agigantam ao ponto de escreveram o seu nome na história do futebol – curiosamente manchada nos dias que antecederam a decisão.

José Mota e os jogadores do Aves festejam a conquista da Taça de Portugal

É um justo prémio para o “miúdo Quim”, que ganhou os duelos frente a Gelson Martins nos minutos iniciais do encontro; para Alexandre Guedes, até então um desconhecido para mim mas que, volvidos alguns minutos, mostrou que a formação do Sporting continua a trabalhar bem – como é apanágio, aliás; para Paulo Machado, a eterna promessa do futebol português que acabou por ser o entertainer da festa; para os restantes jogadores, para a equipa técnica e, principalmente, para os cerca de 7 mil habitantes da Vila das Aves.

Enfim. A Taça de Portugal é, sem dúvida, a verdadeira festa de futebol. É a mais genuína expressão de um dos lados da bola. O de dentro, do interior. Aquele que deveria ser, sempre, o mais importante.

À medida que a tribuna do Jamor se assumia como o palco da maior felicidade de muitos jogadores, aqui ao lado, em Espanha, um artista despedia-se de um outro palco. Um palco que foi seu durante 16 anos. Don Andrés disse adeus a Camp Nou, numa cerimónia emotiva para aqueles que, mais uma vez, são verdadeiramente adeptos de futebol.

aqui escrevi sobre a última final de Iniesta, na altura um acontecimento comovente. Venceu o Sevilha, levantou a Taça do Rei e, cerca de três semanas mais tarde, dizia adeus ao seu único clube.

Não há sequer palavras suficientemente claras e que componham um sem número de artigos que prestem a devida homenagem a uma figura tão ilustre do futebol mundial. As lágrimas foram uma constante em Camp Nou, à medida que Iniesta participava no jogo pela última vez.

Abandonou o relvado perante uma ovação indescritível, distribuiu abraços e beijos por todos os companheiros. Busquets, habituado a ver Iniesta pintar os seus quadros bem à sua frente, não resistiu e fez a caminhada ao lado do craque, batendo palmas até à linha lateral. Era a homenagem merecida, como se quisesse abandonar o relvado com ele.

Os muitos abraços entre Messi e Iniesta, ao longo de toda a noite, espelham a comunhão perfeita entre quem pensa o futebol de maneira diferente; entre aqueles para os quais o futebol é uma coisa natural, simples e natural, ou simplesmente natural.

A sobriedade de Iniesta foi expressa no seu discurso. Os agradecimentos multiplicaram-se, desde companheiros, presidentes, equipa técnica e, principalmente, aos adeptos.

“É um dia difícil”, admitiu. “Foi um prazer e orgulho defender e representar este escudo durante tantos anos. Para mim o melhor do mundo”.

Assim que Camp Nou perdeu toda a plateia, chegou o momento da verdadeira despedida. Sozinho, descalço e de quem quer realmente reflectir sobre tudo o que aquele estádio lhe deu – e tudo o que Iniesta lhe deu também – o médio espanhol sentou-se no centro do terreno, passando mentalmente em revista todos os momentos que fizeram dele a histórica personagem do Barcelona.

As imagens não precisam de legenda ou de explicação. São a tradução perfeita de um sentimento que não se encontra em qualquer lugar, mas que reside habitualmente num dos lados da bola. O de dentro, pois claro.

É inconcebível colocar aqui todas as verdadeiras homenagens a Iniesta. As mensagens, muitas delas em vídeo, parecem retiradas de um filme com final feliz. As lágrimas são um elemento comum a todas, como que a personificar aquilo que ainda levantou dúvidas a muitos adeptos. Mas como há lados da bola que são mais importantes, recordo que Puyol, um dos eternos capitães dos Blaugrana, disse que “se tiveres a sorte de ser amigo de Iniesta, tens um amigo para a vida toda”.

Há sentimentos que mesmo para a bola são difíceis de explicar. A alta competição – imagino – é feita de pressão, de momentos altamente desgastantes a nível mental, mas Iniesta, além do que fazia dentro das quatro linhas, expressava-se na maresia do seu exterior.
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[column size=’1/2′]Curiosamente, ou talvez não, à medida que a vida de Iniesta em Barcelona chegava ao fim, Xavi (quem mais?) dividia as lágrimas com os aplausos. A história de um clube escreve-se assim mesmo, a partir dos seus intérpretes.

A sorte do sorteio da Liga BBVA ditou que, na última jornada da época, o Barcelona defrontasse a Real Sociedade. Se a despedida de Iniesta foi lamentada em todo o mundo, aqueles 90 minutos ditaram também a ‘reforma’ de um outro símbolo do futebol de Espanha, Xabi Prieto. Mais um ‘one man club’ que abandonou a Real ao fim de 15 anos, tendo alinhado em 531 jogos. Como os grandes merecem – com a ajuda dos verdadeiros adeptos – entrou em Camp Nou para ser ovacionado por milhares de pessoas.

Ainda que em clubes diferentes, Iniesta escreveu uma página brilhante da história de Espanha com um outro interprete que, esta semana, disse adeus ao clube do coração. Fernando Torres, “o niño que se tornou lenda”.

Numa altura em que a alcunha ‘El Niño’ era literal, em 2001, os dois amigos vivenciaram um triste episódio de uma saga que viria a tornar-se fantástica, terminada nesta temporada.

A Seleção de Espanha havia sido eliminada do Mundial Sub-17 onde, além de muitos outros craques, figuravam Andrés Iniesta e Fernando Torres. A inocência da adolescência ‘dramatizou’ a derrota, mas escreveu mais uma bela página.

Na viagem de regresso a Espanha, após a eliminação, os dois amigos decidiram expressar os seus sentimentos em palavras. Escreveram uma carta onde colocaram a nu os problemas sentidos aquando duma eliminação de um Mundial para jovens com menos de 17 anos. A carta nunca foi divulgada mas, assim que aterraram no seu país, El Niño ofereceu uma camisola a Andrés.

“Um dia, eu e tu vamos ganhar um Mundial juntos”, escreveu.

A minha sensibilidade obriga-me a perguntar, aqui, se há porventura um lado mais bonito no futebol que não este, o do interior da ‘pelota’, do sentimento e da paixão. Mas a história tratou de me responder antes mesmo de eu ter reparado.

Nove anos depois, os dois amigos venciam um Mundial juntos. Iniesta marcou o golo do triunfo sobre a Holanda, em 2010, na África do Sul, mas, coincidência de um dos lados da bola – ou não – Fernando Torres havia marcado, dois anos antes, em Viena, o golo que deu o Campeonato da Europa à seleção espanhola.

As ilustres figuras do futebol merecem este tipo de destinos, além de artigos que os eternizem ainda mais. Este é o meu, mas torna-se difícil resumir tamanhos acontecimentos em meia dúzia de linhas.

Neste caso, importa sublinhar que ‘El Niño’ regressou ao Atlético de Madrid para levantar a Liga Europa. Antes de abandonar a liga espanhola para rumar a Inglaterra – onde representou Liverpool e Chelsea – o avançado havia capitaneado uma equipa onde pontificava um tal de Diego Simeone.

São as histórias da bola. De um dos lados dela, pelo menos.

Passaram-se treze anos e Fernando Torres levantou um troféu internacional, novamente como capitão, mas, desta vez, tendo Diego Simeone como treinador de equipa.

“Para todas as crianças que têm sonhos: nada é impossível, muito menos se forem do Atlético”, exclamou Torres na festa da conquista.

Despediu-se dos relvados horas antes do amigo com quem conquistou um Mundial, na 410.ª e última vez que vestiu as cores do ‘Atléti’. Pôs um ponto final com dois golos, para perfazer, no total, 139 pelo clube.

Se as lágrimas estavam reservadas para o momento em que o miúdo que se tornou lenda abandonou o relvado por parte dos adeptos, há um outro acontecimento do lado interior da bola que merece ser destacado.

A maior figura dos últimos anos do Atlético de Madrid parece estar de malas feitas para Barcelona. Falo de Griezmann, que deu o título da Liga Europa a Fernando Torres com um bis.

Este sábado, na despedida do capitão, o avançado francês foi protagonista de um episódio comovente para os adeptos do futebol, mas principalmente para ele próprio.

Os adeptos do ‘Atléti’ anseiam pela sua continuidade na capital espanhola, mas Griezmann ainda não se pronunciou abertamente sobre o assunto. A verdade é que assim que entrou em campo no último jogo de Torres, foi presenteado com um coro de assobios que se estendeu a cada toque que dava na bola.

É um dos lados da bola que não interessa, mas que, exactamente por isso, foi ultrapassado. Perante a crítica que chegava das bancadas, El Niño acercou-se do avançado francês para o confortar. Seguiu-se Gabi, outros dos símbolos do Atlético de Madrid. A peça continuou além das quatro linhas, com Godín a dar indicações a Simeone. A partir daí, o verdadeiro lado do futebol imperou.

Por apelo do banco, os milhares de adeptos entoaram o nome de Griezmann em uníssono, numa clara manifestação de amor por um dos jogadores mais importantes dos últimos anos do clube. Ainda que se tenha soltado, o ‘final feliz’ estava reservado para os seguintes minutos.

Fernando Torres – qual capitão – acercou-se de Griezmann para lhe gritar: “Aqui não te vamos reprovar nada. Aqui precisamos de ti de verdade”. O francês não conteve a emoção e antecipou as lágrimas, ele próprio, como as que milhares de adeptos jorraram minutos mais tarde.

A emoção e as lágrimas foram, de resto, transversais aos demais campeonatos da Europa. Em Itália, assistimos a mais uma despedida significativa, daquelas que perdurarão na história do futebol eternamente.

Gigi Buffon fez o árbitro parar o encontro o tempo que fosse necessário. É merecedor de tudo isso e muito mais. Se a sua entrada em campo tinha sido lavada em choros, a sua última caminhada teve tanto de triunfante como de arrepiante. Foram 17 anos. Dezassete anos de profissionalismo, de compromisso – acompanhou a ‘Vecchia Signora’ na Serie B – de momentos inexplicáveis para muitos guarda-redes e, acima de tudo, de paixão e respeito pelo jogo.

Em 1999 venceu os seus dois primeiros troféus, ainda ao serviço do Parma, com a conquista da Taça de Itália e da Taça UEFA. Abandona Itália no ano em que o clube que o lançou regressa à Serie A, curiosamente.

Custou 50 milhões de euros em 2001, mas o valor é, certamente, apenas um número quando falamos de uma figura tão gigante quanto Buffon. Sem querer desrespeitar enormes guarda-redes, o italiano é, para a minha e muitas outras gerações, o melhor guarda-redes de que há memória.

As palavras são parcas para falar de uma personalidade destas dimensões – como as enumeradas acima, aliás – mas Gigi é merecedor de tantas ou mais quanto este artigo leva, porque a sua história é a personificação perfeita de um dos lados da bola. Do seu interior. Do lado sentimental e verdadeiro que o futebol emana.

Há histórias que mostram, plenamente, o lado contrário da bola que todo este artigo tenta catalisar, mas numa semana tão triste para o futebol português, há por demais pormenores que merecem ser destacados. O futebol tem o condão de unir as pessoas, como se de uma religião se tratasse, mas cabe a cada um seguir a ideologia adequada.

A bola tem efetivamente dois lados, mas só para de rodar no sentido certo quando olhamos para ela dessa maneira.

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