Luís Castro é, para mim, um gentelman. Um dos últimos do futebol português. Mais do que a sua forma de treinar ou orientar uma equipa, inspira-me a sua forma de estar, quer no futebol quer na vida em geral. É redutor falar dele de uma forma tão romântica, visto que nunca tive a oportunidade de privar com o novo treinador do Shakhtar, mas todas as suas intervenções na comunicação social têm determinado peso na minha forma de pensar, quer no futebol quer na vida em geral. Continuo a juntar alguns recortes de jornais de entrevistas suas, mas numa era em que o digital é mais seguro que o papel (talvez não seja exatamente assim, mas aqui é mais fácil eternizar alguma coisa), transcrevo uma entrevista publicada no jornal O Jogo, levada a cabo pelo jornalista Tomaz Andrade. Aqui, ao contrário da versão em papel, não vou conseguir ser graficamente tão organizado, mas o mais importante é sempre o conteúdo, nem tanto a forma como é apresentado. Luís Castro foi apresentado recentemente como o novo treinador do Shakhtar, da Ucrânia.
Entrevista publicada originalmente no jornal O Jogo
TA: Em 2017 disse ao ‘Expresso’ que tinha recusado uma proposta da China e achava que nunca iria sair de Portugal. Agora vai para o Shakhtar. O que mudou?
LC: A proposta da China era para me envolver na formação e eu estava numa fase em que não queria voltar a essa área. Talvez isso me tenha levado a dizer que não iria sair de Portugal. Entretanto, vamos ajustando os pensamentos em função dos contextos.
TA: O convite do Shakhtar foi, de certa forma, inesperado?
LC: Neste período houve abordagens da Arábia Saudita, do Norte de África, de França, de Inglaterra e do Shakhtar. Só pensaria nessas abordagens a partir do momento em que se tornassem efetivas. Quando surge um convite, temos de analisar várias vertentes: o lado social, familiar, profissional. Foi estranho o que senti no momento. Eu andei ao longo da minha carreira à procurar o contrato que me desse independência financeira e naquela altura não pensei em dinheiro, pensei apenas no que envolveria a mudança para um clube desta dimensão.
TA: E vai jogar a Champions…
LC: Sim, claro que pensei na Champions, mas antes de tudo pensei na família. Depois pensei o que realmente significava um convite destes para quem começa na distrital há muitos anos e que percorre um caminho sustentado no trabalho até chegar à Champions. Foquei-me sempre no trabalho e alheei-me de muitas coisas que rodeiam o futebol. Foi essa a fórmula que me permitiu chegar até aqui, senti-me entusiasmado e percebi que essa fórmula vai continuar comigo.
TA:Disse que tinha o sonho de ser campeão nacional fosse em que país fosse. Está mais próximo?
LC: O Shakhtar é o principal candidato ao título ucraniano e tem o Dínamo Kiev como grande rival.
TA:Como vai ser trabalhar num país diferente, com outra cultura e língua?
LC: Quando estamos focados no treino e no trabalho, tudo o que nos rodeia deve dar-nos estabilidade. Há 12 brasileiros e, por aí, a língua é fácil, tenho tradutor para os ucranianos e para os de Leste e, quando for preciso, fala-se inglês.
TA: Normalmente precisa de tempo para implementar a sua ideia de jogo. Neste contexto, isto pode ser um problema acrescido?
LC: Conheci o trabalho do Paulo Fonseca quando estava no FC Porto; temos ideias parecidas, embora com algumas variantes. Todo o plantel vai transitar, o nosso presidente recusa qualquer tipo de vende e isso também nos dá estabilidade. O sucesso do Paulo é inquestionável e certamente ele irá fazer um grande trabalho na Roma.
TA: Este passo para o Shakhtar pode, mais tarde, abrir-lhe outras portas em Portugal?
LC: Vivo em paz, não olho para o futuro.
TA: O que gostava ainda de fazer na carreira?
LC: Gostaria de ser selecionador. Não digo que quero ser selecionador de Portugal, porque à minha frente há muitos treinadores competentes, mas é algo que gostava de fazer um dia.
TA:E que talentos deve ter um selecionador?
LC: Saber selecionar, ter uma boa proposta de jogo para os jogadores que escolhe, ter responsabilidade máxima e capacidade de liderança.
Não é preciso atropelar ninguém
TA: Discute-se tudo no futebol português e pouco se fala do jogo. Que opinião tem do momento que se vive na modalidade?
LC: As pessoas confundem informação com conhecimento. Eu leio os livros que quero, vejo os programas televisivos que quero, vejo os filmes que quero e sento-me com quem quero. Não é fácil venderem-me coisas. Procuro a informação que quero, penso muito sobre ela e tento que se transforme em conhecimento. Há muitas pessoas que pensam que a informação é saber e, nessa medida, falam muito sobre os assuntos. É aqui que está o problema. Como é que se cria uma opinião sem se conhecer algo em profundidade? Devia falar-se mais com conhecimento de causa; é tudo muito leve, de consumo imediato. Todos os agentes do futebol, sem exceção, devem cuidar melhor do futebol.
TA: É apontado como um dos últimos “gentleman” no meio. Como olha para isso?
LC: Nunca mudei a minha forma de estar na vida e no futebol. Há valores que estão presentes no meu dia a dia, como o respeito pelo outro; gosto da liberdade de opinião e acho que não é preciso atropelar-se ninguém para se caminhar nesta vida.
TA: Talvez por isso já tenha ganho um lugar no futebol. Quais são as suas maiores obras de arte?
LC: O que quero é ganhar um lugar no coração das minhas filhas, da minha mulher, dos meus mais, dos meus irmãos, dos meus amigos. Gosto do elogio em detrimento da crítica. Fico contente em ouvir que ganhei um lugar no futebol português pela forma como sou; gosto de ouvir dizer que defendo uma boa ideia de jogo, gosto que os meus jogadores apreciem a minha forma de treinar e que gostem de algumas comunicações minhas, gosto de sentir apoio da minha administração e gosto da forma como sou tratado pela comunicação social.
Levantava-me às 6:40 e chegava a Guimarães às 7h50. Tomava o pequeno almoço no clube, tinha uma reunião com o departamento médico e outra com a equipa técnica para discutir o treino; fazia depois uma comunicação aos jogadores cinco minutos antes de começar o treino, que começava às 10:30. Após a avaliação do treino, já em casa, observava vídeos do adversário, da nossa equipa e lia relatórios. Via alguns documentários e filmes, lia livros e assim era o meu dia a dia até ao jantar.
TA: Não ficou arrependido de não ter aceitado o convite do Reading?
LC: Não era a melhor altura para sair. E não quis interromper o vínculo com o Vitória, apesar de muita gente não entender isso. Não fiquei nada arrependido de ter ficado, porque agi em consciência, e o Vitória acabou por atingir o objetivo europeu do quinto lugar.
TA: Apesar disso, o seu trabalho não foi consensual entre os adeptos. Alguma mágoa?
LC: Nada, nada. Vivi o 25 de Abril com 13 anos, em Vieira de Leiria, uma zona politicamente muito forte, e sempre percebi que a liberdade de opinião era fundamental para o progresso da sociedade. Se o clube quiser seguir em frente, tem de ter opiniões diferentes. Nunca esperei o consenso no Vitória; sempre esperei trabalhar e ter à minha volta sócios entusiastas. Prefiro sempre o elogio à crítica. Muita gente olha para mim e vê o Luís Castro com 57 anos, só que há uma história de vida por trás, com trabalho numa fábrica e nos distritais. Surpreendia-me que dissessem que era um treinador sem ambição e pensava como era possível dizerem isso de alguém que vinha da distrital até à Liga e que agora vai à Champions. Há preconceitos instalados no futebol, como o de estar no banco e ter de gritar e gesticular para poder ser apelidado de ambicioso. Isso não é ser ambicioso; a nossa ambição vê-se no dia a dia, no treino, na comunicação com os jogadores e no percurso.
TA: Fez algo no Vitória, ou deixou por fazer, de se que se tenha arrependido?
LC: Não, porque tudo o que faço é em função do momento. O que interessa é o que sentimos quando tomámos a decisão.
TA: O Vitória tem nesta altura condições para ser mais do que quinto classificado?
LC: Só a administração poderá responder a isso.
TA: Mas em função dos argumentos que teve à disposição…
LC: Na época passada houve uma fratura na construção do plantel. Como toda a gente percebeu, ou não, muitas vezes o Vitória jogou com nove atletas novos, acabados de chegar ao clube. E muitos desses jogadores não foram titulares na época anterior, como o Sacko, Osorio, Rafa Soares, André André, Joseph, João Carlos Teixeira, Guedes, Ola John… Foi um risco assumido. No futebol português, queremos atingir níveis muito altos, e conseguimo-lo através de alguns clubes e da Seleção, mas maioritariamente não temos capacidade para contratar um jogador na segunda liga espanhola, alemã e francesa. Foi fantástico ver a equipa crescer e atingir o quinto lugar; e ainda bem que apareceu um Moreirense fortíssimo.
Disse ao presidente do Águeda que não ia ser treinador apenas à noite e ele perguntou-me se queria vender umas embalagens na empresa dele. Aceitei.
TA: Qual a sua maior fonte de inspiração?
LC: Os meus dois treinadores da formação quando tinha 13/14 anos, o Sr. Graça e o Sr. Orlando Rosseau, no Vieirense e no União de Leiria; complementaram a educação dada pelos meus pais. Disseram-me que devia respeitar o adversário para poder ganhar, respeitar um árbitro porque era a entidade máxima num capo, devia respeitar valores de solidariedade, devia ser companheiro em todas as horas, devia aceitar da mesma forma ser suplente ou titular e devia estudar para jogar futebol.
TA: Como chegou a treinador?
LC: Foi com o Sr. José Domingos, no Águeda, que me pediu para ser seu adjunto quando ainda jogava. Sempre gostei de liderar, foi natural passar a treinador.
TA: Trabalhava enquanto treinava…
LC: Fui comercial. Disse ao presidente do Águeda que não ia ser treinador apenas à noite e ele perguntou-me se queria vender umas embalagens na empresa dele. Aceitei.
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