Em jeito de nota prévia, ainda que sem a típica pontuação dos dois pontos a assinalá-la, importa sublinhar que isto foi escrito por um adepto do Manchester United; um adepto do clube e, por conseguinte, capaz de louvar e criticar qualquer dos momentos que pairem no Teatro dos Sonhos.

Depois de uns meses conturbados sob a orientação de José Mourinho, eis que os ‘Red Devils’ parecem revitalizados, confiantes e determinados em devolver o clube aos adeptos. A escolha recaiu em Ole Gunnar Solskjaer, uma das figuras do clube nos últimos 25 anos, autor de um dos golos mais inesquecíveis para qualquer adepto do United e, até, do futebol em geral.

Este é provavelmente o décimo artigo que começo a escrever, pautados pelos dez jogos que o norueguês leva à frente da equipa: nove pensados sob a euforia da vitória e um sob a consciência de um empate no nosso terreno, mas catalisado por dois golos marcados nos últimos minutos de jogo, a fazer lembrar os bons velhos tempos, a fazer lembrar aquele golo em Barcelona.

Ao fim de dez encontros – e antecedendo uma série que se avizinha difícil e que poderá, por fim, pôr à prova esta equipa – Solskjaer concedeu uma entrevista ‘exclusiva’ à Sky Sports onde, como vem sendo seu hábito, recordou a história do Manchester United para falar deste novo momento.

“Nunca devemos esquecer que trazemos este emblema ao peito”, reforça o norueguês. “Estes jogadores estão cá porque são especiais. Se eles não tivessem um ‘fator X’ ou algo que os diferenciasse, eles nunca estariam no Manchester United”.

A cultura da valorização da grandeza foi, desde que me lembro, um marco importante para o clube. A cultura da vitória, da intensidade e da crença, tornada célebre pelos golos tardios tão tradicionais no Manchester United.

“A nossa identidade? É uma identidade vencedora, uma identidade confiante. Queremos correr riscos. Queremos ir atrás do segundo, do terceiro e do quarto golo porque é assim que se fazem as coisas aqui. Se não consegues lidar com isto, então estás no clube errado”.

Será este, então, o clube certo para Solskjaer, depois da passagem pelo Cardiff, que terminou com a descida de divisão?

“Está a ser como eu esperava, honestamente. Um bocadinho melhor. (…) Este é um clube e uma situação completamente diferente. Eu conheço a cultura, a identidade e o estilo de jogo do Manchester United e, claro, preenche-me mais que estar num clube que tenta fugir aos últimos lugares da tabela. Eu não estava pronto para essa luta. Eu não disse que não estava pronto para a Premier League. São coisas diferentes”.

Se dúvidas houvessem – que ainda há quem as tenha – os resultados falam por si: nove vitórias e um empate em dez jogos. Se os primeiros adversários faziam o trabalho parecer simples, os triunfos nos terrenos do Tottenham e Arsenal vieram mostrar a força deste novo United, emergente e a ferir os adversários nas saídas rápidas (ou contra-ataques) tão famosos durante a era de Ferguson.

“Ainda que os jogadores sejam diferentes, o Marcus [Rashford] e o Anthony [Martial] não estão assim tão distantes do Cristiano [Ronaldo] e do Wayne [Rooney]; o Jesse [Lingard] com o ritmo do [Park] Ji-Sung… Há tantas semelhanças. Nós não devemos esquecer esses jogos porque fazem parte da nossa história”.

Embora as comparações sejam sempre relativas, é de notar a diferença no número de ataques rápidos entre a equipa orientada por José Mourinho e a de Solskjaer. De acordo com os dados da Sky Sports, o Manchester United passou de ser a equipa com menos lances do género na Premier League para a que mais aposta nesses momentos de jogo.

“Pela forma como nós jogamos, com velocidade e potência, não devemos esquecer a nossa história de contra-ataque, ainda que sejamos uma equipa que quer dominar os jogos. Se as equipas defendem com uma linha mais baixa, temos que ter uma forma de as ferir, mas também temos de defender; defender para ganhar a bola e sair rápido para o ataque”.

Essa postura atacante tem sido um dos desígnios deste renovado United. Em oito jogos sob a orientação de Ole para Premier League, os ‘Red Devils’ marcaram 20 golos (2,5 por cento de golos por jogo), face aos 29 conseguidos por Mourinho em 17 partidas (1,7 por cento). Apesar de Mourinho ter ficado célebre em Inglaterra pela ‘tática do autocarro’, a diferença a nível defensivo é também notória: seis golos sofridos nos últimos oito jogos (0,8 por cento) face aos 29 concedidos com o português (1,7 por cento).

A amostra é ainda reduzida no comando do norueguês, mas será dele todo o mérito pela mudança?

“Somos uma equipa técnica grande. Eu tomo as decisões, mas eu dou à equipa técnica a confiança e a responsabilidade. (…) Nós temos que encontrar uma maneira de ganhar um jogo. Não é só comigo ou com o ‘staff’. Cada jogo é diferente. Podemos marcar o primeiro golo e o jogo é uma coisa, podemos sofrer primeiro e é outra. Os jogadores têm que tomar decisões com base nas suas experiências e nas suas qualidades. (…) Nós falamos com eles e damos-lhe a coragem, mas uma coisa é falar, outra é eles sentirem-na. Eles têm-no feito por eles próprios”.

Parece certo que o Teatro se voltou a encher de Sonhos em Inglaterra. As próximas semanas irão revelar de que fibra é feito este novo United. Solskjaer conseguiu estatísticas que levam os adeptos a reviver os tempos de Ferguson à frente da equipa – cinco golos num só jogo ou cinco vitórias consecutivas fora de portas – mas estará o norueguês preparado para o desafio?

“Estamos em boa posição e num excelente momento de forma. Estamos confiantes. Acreditamos em nós e estamos prontos para o que aí vem”.

São palavras do próprio.

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