A despedida chega para todos nós. Alguns com menos emoção, mas os (con)sagrados, esses, fazem das lágrimas e aplausos uma nuvem comum que atravessa idades, preferências e visões.
Iniesta demorou perto de dois minutos a abandonar o relvado que presenciou, ao que tudo indica, a sua última final com a camisola do Barcelona. De olhos vermelhos e a engolir em seco, caminhou calmamente – como só ele sabe – até à linha lateral. Foi abraçado pelos companheiros à medida que o banco se aproximava, num estádio Metropolitano que se levantou para prestar homenagem a uma figura única do futebol. De Barcelona a Sevilha, ninguém ficou indiferente. Sentou-se no banco, verteu as naturais lágrimas de emoção e, volvidos alguns minutos, levantou-se para erguer a Taça do Rei.

A última valsa de Iniesta, numa final, foi coroada com o 34.º título da carreira – o 35.º deve chegar este fim de semana. À medida que subia para erguer o troféu, os seus companheiros, estupefactos, esperavam novamente por ele, como no minuto 51 desse encontro, quando apontou o golo que o destino quis escrever. Esta era a final de Iniesta.

Recebeu de Messi e, como só ele sabe, quase numa pausa orgânica do movimento, deixou o guarda-redes adversário para trás e fez levantar um estádio. A nostalgia apoderou-se naquele instante, quando, num salto, deixou a tristeza pregada no relvado e saltou para uma comemoração efusiva.

“Houve muita emoção neste golo. Muitas emoções, muitos sentimentos, muitos anos. Eu realmente queria que a final corresse bem. Estou feliz”, admitiu Iniesta.

Após o voo triunfal, de punho em riste, todos os companheiros ‘celebraram’ Iniesta. De olhos fechados, num abraço duradouro, Messi pedia que Iniesta não fosse, que não abandonasse esta geração que é, sem dúvida, dele.

Aquele abraço, mais que uma despedida, simboliza a procura de Messi por Iniesta. Nos bons e nos maus momentos – especialmente nestes últimos.

“Eu sei como é difícil fazer o que ele faz. Em campo, gosto que esteja perto de mim, especialmente quando o jogo piora e as coisas estão difíceis. É quando lhe digo: ‘Anda, aproxima-te’. Ele assume o controlo e a responsabilidade”, confessou Messi, no livro de Iniesta, ‘The Artist’.

Foi a solução simples que marcou mais de uma década na Catalunha, e que ganhou novamente expressão na última final, frente ao Sevilha. Ainda que às vezes pareça, Iniesta não consegue parar o tempo, não consegue congelar os momentos e, daqui em diante, depois de 22 anos desde que chegou – 18 deles com Messi – o argentino não vai encontrar o farol no jogo do Barcelona.

Iniesta celebra o golo da final frente ao Sevilha, na final da Taça do Rei de 2018

A final foi de Iniesta e tocou qualquer adepto. Os apelos para que continue só dão força à sua decisão de partir para a China, ao que tudo indica, depois de no ano passado ter assinado um contrato vitalício com o clube que o recebeu, então com 12 anos.

Agora, aos 33, as recordações de Setembro de 1996, quando aterrou em La Masia, são vistas como “as piores da sua vida”. Chegou como um menino “pálido, pequenino, triste, delicado e sensível”, recorda José Bermudez, que acompanhou a sua chegada. Pensou em desistir mas, quando o pai se preparava para o ir buscar de volta a casa, a mãe interferiu e pediu-lhe para tentar. A história conta o resto.

Seguiram-se 34 troféus, entre os quais dois tripletes, Europeus e Mundiais consecutivos. Ainda que pareça simples, à imagem do seu futebol, o sofrimento foi notado. Victor Valdés, que acompanhou Iniesta desde o início, diz que o seu “sucesso foi forjado com lágrimas silenciosas”.

A palavra ‘depressão’ nunca saiu da boca de Iniesta, mas falou abertamente sobre a “queda livre” que o levou a um “lugar sombrio” antes do Mundial de 2010. O The Guardian, por Sid Lowe, conta que, na preparação para o torneio, Iniesta foi visto a correr nos corredores do hotel a meio da noite, como que a provar a sua capacidade para si próprio, a contas com uma lesão.

Ele jogou. E jogou da maneira como só ele sabe, como o As descreve.

“Uma era vai com ele. Um estilo também. Uma maneira de jogar e um modo de vida”.

A lesão foi ultrapassada – com ou sem corridas no corredor do hotel – para que fosse Iniesta a decidir o Mundial. Para que Iniesta, aos 116 minutos de jogo, marcasse o golo do triunfo sobre a Holanda e, de súbito, levantasse a camisola com uma homenagem a Dani Jarque, amigo e capitão do Espanhol, que faleceu após um ataque cardíaco.

O golo chegou. Como que uma premonição de Jessica, a mulher de Jarque que, durante um ano, não assistiu a um único jogo de futebol. Ligou a televisão para ver a final, para ver o golo que homenagearia o marido, o golo que a fez “chorar antes de entrar”.

A genialidade de Iniesta é sentida em qualquer estádio de Espanha e do mundo. É aplaudido em qualquer relvado. É chamado de “Último Imperador”, por um jornalista espanhol, ou de “Património Mundial”, por Luis Enrique, seu companheiro e, mais tarde, seu treinador. É como se se tratasse de um “tesouro partilhado”, apreciado por todos.

“Há uma normalidade sobre ele que não é totalmente normal no futebol. Ele é universalmente admirado”, escreve Sid Lowe, no The Guardian. Eto’o diz que ele é tão boa pessoa que “quando alguém bate nele, ele é que pede desculpa”, enquanto Sérgio Ramos discorda. “Tu não podes bater nele, é o Andrés”.

Antes de ser seu companheiro de equipa, Rakitic já sabia que ele “é de outro nível”, que “pensa tão rápido” que está “sempre no controlo”. Fernando Torres, que o conhece há quinze anos, dizia que “quando ele está com a bola, é como se tudo o resto parasse”. Para Montella, treinador derrotado esta final, é apenas “extraterrestre”.

Tudo isto foi sublinhado no sábado passado, frente ao Sevilha. Iniesta controlou a bola, o adversário e o guarda-redes. Apesar do trabalho natural de um jogador de futebol, o próprio descreve as coisas como intuitivas, fazendo-as “aos 12 anos e agora”. É um jogador de “inteligência e consciência incomum”, diz Del Bosque.

Dos 12 aos 33 anos, o jogador que é considerado “património mundial” foi uma das ilustres figuras do Barcelona e da escola de La Masia. A primeira vez que foi chamado a um treino da equipa principal, Luis Enrique foi buscá-lo ao portão, para que o segurança o deixasse entrar. Apesar dos apelos de Guardiola, Luis Enrique não se recorda desse dia.

“Lembrem-se deste dia, o dia em que jogaram pela primeira vez com Andrés”, disse Guardiola, antes de se referir também a Xavi. “Tu vais-me reformar. Este rapaz vai-nos reformar a todos”.

Falar de Iniesta é, também, falar de Xavi – o “carrossel” que deu voltas à cabeça de Alex Ferguson, como o próprio admitiu. Mais do que companheiros de equipa, a dupla de médios marcou uma geração no futebol – a minha, por sinal.

‘No te vás’, apela Messi

“Ele é um fenómeno, uma força da natureza: ninguém joga como ele e ninguém se pode comparar com ele. Às vezes tenho a sensação de que Andrés não percebe o quão importante ele é. Um dia vai-se aposentar e veremos a magnitude do que ele fez”, disse Xavi.

Numa altura em que a France Football pede desculpa a Iniesta por nunca lhe ter dado uma Bola de Ouro, o craque já havia respondido, meses antes. “É emocionante ver o carinho e o respeito que as pessoas têm por mim”, disse ele.

O tempo urge e a despedida chega para todos nós.

“Em pouco tempo, Messi vai olhar e não vai ver o seu farol. Vai ver um espaço vazio. Todos eles vão.” Todos nós vamos.

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