A despedida de Michael Carrick. De cabeça erguida, entre milhares de aplausos que silenciaram o ‘Teatro dos Sonhos’.  A última peça de Carrick – qual pianista – aconteceu a 13 de Maio, em Manchester, o palco que ele escolheu para se eternizar e que, por sua vez, o recordará para sempre. De cabeça erguida, com um traço vintage que caracteriza os jogadores que pautam como jogam, como pensam e como são. Assim foi, é e será Michael Carrick. O piano de ‘Carras’ deixou de tocar. Levou com ele toda a melodia que uma era dourada trouxe ao Manchester United e a Inglaterra. À medida que ia orquestrando o seu último encontro, os seus companheiros, boquiabertos, tentaram acompanhar com gestos o que Carrick já tinha idealizado na cabeça.

A música era dele, para entoar pela última vez no ‘Teatro dos Sonhos’. Recebeu do central – com o espaço que um jogador que pensa mais rápido que os restantes não pode ter – levantou a cabeça e, num passe de sensivelmente 50 metros, deixou dois companheiros na cara do golo. Um momento de magia que raras vezes se tem visto em Old Trafford, mas que sublinha a calmaria e classe que caracterizam um dos jogadores ingleses mais ‘underrated’ de que há memória.

Estava escrito, Michael tinha dito adeus como tantas outras vezes marcou a sua presença, quase silencioso – com um passe que (não) surpreendeu toda a gente.

“Quero agradecer, em nome próprio, por todo o vosso apoio ao longo dos últimos anos. Levo muitas memórias para celebrar. É o maior clube do mundo e quero agradecer pelos últimos 12 anos”, disse.

As palavras de Carrick, no seu último encontro, são a sua personificação perfeita. Sóbria, com classe, à frente dos outros 21 elementos que fazem parte da sua peça. Assim foi ao longo de doze temporadas e 464 jogos que se traduzem em 18 títulos pelos ‘Red Devils’.

Chegou em 2006, como um “miúdo alto, magro e branquinho, mas com um pés fantásticos”, como recorda Rio Ferdinand. Numa altura em que a Premier League tinha sido tomada de assalto por um tal de José Mourinho, o Manchester United tentava reerguer-se. Se Cristiano Ronaldo começa a ‘arrepiar caminho’ para aquilo em que se tornou hoje, o clube vivia um clima tenso, com a falta de títulos e a saída de jogadores preponderantes como Roy Keane ou Ruud van Nistelrooy.

Carrick aterrava em Old Trafford. A única contratação da temporada e aquela que se revelou como a única necessária, como Paul Scholes – sim, esse – apregoa.

“Ele traz calma ao jogo e desfila em torno do campo como se fosse um Rolls-Royce. Sempre achei muito fácil jogar com ele. Pode criar e marcar golos, além da forte presença que tem. Pode correr o dia todo”, contou.

Seguiu-se um “desfile” por Inglaterra, com cinco títulos de campeão nos sete anos seguintes, além de uma Liga dos Campeões e duas finais perdidas frente ao Barcelona de Pep Guardiola, porventura uma das melhores equipa de futebol de que há memória.

Há muitas razões para explicar o sucesso do clube nesses anos. A ascensão meteórica de Cristiano Ronaldo ou a sua ligação com Rooney, mas um ponto assinalável era a o trilho do meio campo, supervisionado por um Michael Carrick ao seu estilo – calmo, clássico e de cabeça erguida.

A inteligência e qualidade de passe de Carrick eram – e são, ainda – duas das suas maiores características. Os passes verticais, curtos, incisivos e constantes. O médio inglês era capaz de fazer um passe, tornar-se disponível para receber o seguinte e, antes disso, já saber onde ia colocar a bola a seguir.

Isso não quer dizer, contudo, que não conseguisse fazer aqueles passes ‘hollywoodescos’ de 50 metros. Os seus passes nas diagonais – ora esquerda, ora direita – saíam tão facilmente dos seus pés como se o colega estivesse a dois metros dele.

“Às vezes parece complicado para as pessoas enaltecer o trabalho daqueles que, em vez de brilharem, fazem a equipa funcionar melhor como um todo. Carrick punha a jogar quem o rodeava”, disse Xabi Alonso.

A personalidade de Michael Carrick é unânime, não só pelo que fazia calmamente no relvado, mas também pelo que simbolizava fora dele. A guarda de honra que recebeu, à medida que pisava a relva do ‘Teatro dos Sonhos’, é a maior condecoração que uma lenda desta magnitude merece.

“Quando jogas com o Carrick pensas em ‘autoridade’, controlo, paz. Quando estás num campo a defrontar equipas como o Liverpool ou o City, tu precisas de paz à tua volta. Scholes e Carrick, juntos, era calmo, tranquilizador. É como entrar num bar e ouvir um piano tocar. É relaxante. Ouvir um bom rock é bom e tu gostas, mas, às vezes, é reconfortante ouvir um piano. O piano do Carrick”, admitiu Gary Neville.

Estas palavras ganharam forma no passado domingo, frente ao Watford. Carrick atuou como só ele sabe, dando o “balanço que o meio campo precisa”, como admitiu Xavi, e com a “visão e a inteligência” com que Wenger o caracterizou.

A história é de há uns anos, mas foi escrita pelo internacional inglês, dentro de campo, onde ‘ninguém dá por ele’. Ninguém excepto aqueles que olham para o jogo de outra forma. Pep Guardiola, depois da final da Liga dos Campeões de 2011, admitiu que Carrick era um “dos melhores médios centro que eu vi em toda a minha vida”.

“Não apenas nesta época, mas todos os anos. As pessoas não percebem o que o Carrick traz ao jogo. Vão perceber quando ele partir”, completou Thierry Henry.

Ele partiu. Após uma estadia de doze anos em Manchester, Carrick abandona os relvados enquanto jogador. Recordam-se as conquistas, os passes teleguiados para companheiros ou para a baliza. Acima de tudo, recorda-se a pessoa que continua e continuará a ser.

Aquando da despedida, nenhum elemento do plantel ficou indiferente. A “honra” em ser capitaneado por tão ilustre figura foi vincada por todos. Ander Herrera sublinhou a sua “normalidade”; Pogba “a pessoa fantástica” e os seus conselhos; Smalling admitiu mesmo que “é preciso um longo caminho para encontrar melhor pessoa no futebol” e Lingaard chamou-o de “inspiração”.

Mas Mata, que está envolvido no mesmo veludo que o inglês, conseguiu ir mais longe.

“Para todas as crianças que aspiram a serem jogadores de futebol: Por favor, aspirem a ser como o Michael. Uma lenda”, escreveu.

Segue-se uma nova etapa. O passo natural de quem é cerebral no jogo, de quem o entende superiormente. A saída de Rui Faria da equipa técnica de Mourinho deixou uma vaga mas, mesmo que esta não estivesse disponível, Carrick abriria a excepção.

José Mourinho, que parece disponível para ficar em Old Traford durante muitos anos, quer que Michael seja seu adjunto. Admitiu-o. Admitiu-o antes de reconhecer a fortuna de Sir Alex.

“Sir Alex era um homem feliz por ter este jogador com ele. Eu tive-o na fase final da carreira. Foi o suficiente para me apaixonar pelo jogador e pela pessoa”, confessou.

A travar agora uma batalha contra os problemas de saúde, Sir Alex Ferguson, a maior figura de um clube tão histórico quanto o Manchester United, não tem dúvidas de que Carrick será um excelente treinador, “como em tudo o que faz”, aliás.

Até vê-lo com o traje de treinador principal deste clube vão ser necessários alguns anos. De conquistas, espero eu. Numa altura em que o título de campeão foge há tanto tempo, Carrick despede-se e deixa um vazio. A era de Alex Ferguson está indubitavelmente a acabar.

“O tempo urge e a despedida chega para todos nós”.

Em pouco tempo, Carrick estará (novamente) sentado no banco, onde a sua liderança e inteligência são tanto ou mais importante.

Não saiu em lágrimas, como tantos outros génios. Mas vai deixar tantas ou mais saudades que esses mesmos génios. “A despedida chega para todos nós”, mas a história ninguém consegue apagar.

“Obrigado Carrick. Vamos ter saudades tuas”.

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