e por fim… aqui. desde a criação deste blog – mais tarde um site propriamente dito – que escrever sobre o álbum panopticon, de isis, se tornou quase imperativo. pela inspiração, pelo significado e, principalmente, pela simbologia. adiei inúmeras vezes. vezes demais, diria. não deveria ser difícil escrever sobre o que nos toca, mas a necessidade de querer acrescentar e fazer diferente anda de braço dado com a dúvida de sermos suficientes.
não me recordo da primeira vez que ouvi o panopticon. não foi um álbum descoberto ao acaso que, à primeira audição, entrou imediatamente nos meus rankings mentais. foi, antes disso, uma das muitas sugestões de um grande amigo, melómano e, para mim, um verdadeiro cicerone – obrigado beto. surgiu no seguimento da minha obsessão por tool e por álbuns compostos e até emaranhados. talvez tenha sido, até, numa tentativa de plastificar o pensamento e abrir o horizonte a outros sons.
apesar de ter sido editado em 2004, panopticon continua completamente atual na sua concepção. o álbum é baseado na ideia circular de uma prisão, desenvolvida inicialmente pelo filósofo britânico jeremy bentham, na qual o vigilante conseguia observar toda a prisão em simultâneo, sem que ninguém o conseguisse ver. de resto, este conceito viria a ser aprofundado mais tarde por michael foucault, no livro vigiar e punir – o nascimento da prisão, onde o autor analisa a transição dos tormentos físicos para uma prisão mais moderna e de vigilância constante. é natural, por isso, que panopticon se debruce sobre esse medo e o olhar permanente da sociedade contemporânea. isto, claro, do ponto de vista filosófico – não há registos de que o disco tenha tido uma intenção política mascarada nos 59 minutos de tons ligados ao doom, sludge, post e a todas essas gavetas que continuam a surgir.
panopticon não está em nenhum desses catálogos e está em todos eles. tudo ao mesmo tempo. usa todos esses rótulos e mais alguns. há até registos de a banda ter recebido cartas de fãs a dar conta de como o álbum os ajudou a ultrapassar o vício pela heroína. eu nunca fui viciado em heroína, mas meio que compreendo.
há no disco qualquer coisa que não é apenas música. há um peso constante, quase físico, como se cada tema fosse construído sob um ar denso que vem devagar; há desgaste e uma bateria que não só marca o tempo, como o arrasta; até as vozes parecem não se sobrepor aos instrumentos, ficando numa camada secundária mas não menos importante; não há refrões para agarrar ou pontos de entrada demasiado óbvios. há um fluxo contínuo, quase circular, que nos vai absorvendo. talvez seja neste processo que tudo soa mais distante e que nos faça observar, também a nós, de dentro para fora; talvez até já habitemos o conceito da prisão.
panopticon pode até ser exatamente isso: não um álbum para passar o tempo, mas para ouvir quando o tempo já não interessa muito.
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