Passaram duas décadas, mas Phil Masinga nunca esqueceu as palavras de Howard Wilinson no seu primeiro dia ao serviço do Leeds United, no verão de 1994. “Disse-me para não ter medo de ninguém”, recordou o sul-africano à BBC, então em 2015. “Disse que eu era tão bom como os restantes, para eu dar o meu melhor que poderia tornar-me num jogador de topo”, acrescentou.

Numa altura em que os episódios de racismo inundam o mundo do futebol, a história de Masinga ganha contornos especiais. A sua morte, vítima de cancro a 12 de Janeiro, trouxe-o de volta à ‘atualidade’.

Phil nasceu na aldeia de Khuma, na África do Sul, e destacou-se ao serviço dos Jomo Cosmos e dos Mamelodi Sundowsn, antes de rumar até a Inglaterra. Recusou o Sporting, então treinado por Bobby Robson, para embarcar numa aventura que se verificou histórica, na companhia de Lucas Radebe.

“Não estávamos habituados ao tempo e foi um bocadinho difícil”, contou Radebe à BBC. “Phil foi um fenónemo entre a equipa e os jogadores. Eu olhei para ele e pensei que me inspirava. Foi fantástica a forma como ele se adaptou”, acrescentou.

Depois de se estrear na seleção sul-africana em 1992, Masinga tornou-se no primeiro negro daquele país a jogar na Premier League, alguns meses depois de Nelson Mandela ter sido eleito presidente. Fez dois ‘hat-tricks’ durante a pré-temporada e demorou apenas três minutos para marcar ao Chelsea, em agosto de 1994, numa derrota por 3-2. A estreia de Radebe aconteceu algumas semanas depois, frente ao Sheffield Wednesday.

A porta estava aberta, apesar da dupla não ter sido a primeira de sul-africanos a atuar pelo Leeds. (Gerry Francis e Albert Johannesson fizeram-no em 1961).

A contratação do ganês Tony Yeboah marcou, contudo, o início do fim da aventura de Masinga em Elland Road. Embora Radebe se tenha tornado capitão do Leeds, sobre a orientação de George Graham, o seu amigo mudou-se para a Suíça em 1996, depois de 31 presenças pela turma de Yorkshire.

Seguiram-se aventuras por Itália, no Salernitana e no Bari, onde marcou mais de 30 golos em quatro temporadas, antes do histórico golo que valeu a primeira presença da África do Sul na fase final de um Mundial, frente à República do Congo.

Apesar do feito, Masinga viria a ser assobiado pelos adeptos no jogo internacional seguinte, depois de desperdiçar várias oportunidades em frente à baliza. Renunciou à seleção depois do Mundial de França.

“Foi difícil, estava-me a matar”, disse na altura. “Nem conseguia comprar mais jornais, não queria saber o que escreviam sobre mim”.

Ao ter problemas na licença de trabalho em 2001 e a contas com uma lesão no joelho, Masinga terminou a carreira e voltou à África do Sul, onde orientou o seu antigo clube, o Jomo Cosmos. Em cinco anos, depois de “alguns maus investimentos”, voltou a viver com a mãe, tendo inclusive vendido a medalha de vencedor da Taça das Nações Africanas de 1996.

“Algumas pessoas têm sorte por ter conhecimento financeiro através de estudos ou carreiras. Eu tive que aprender a minha através da ‘universidade da vida'”, explicou.

Embora tenha voltado aos estudos para perseguir um sonho em regressar ao futebol de topo como empresário ou diretor, foi-lhe diagnosticado um cancro. Morreu a 12 de Janeiro.

“Perdemos uma lenda do futebol, Phil ‘Chippa’ Masinga’, escreveu Pienaar nas redes sociais. “Ele abriu caminho para todos os jogadores sul-africanos no Reino Unido”, acrescentou o jogador que já passou, entre outros, por Everton, Tottenham e Sunderland.

(Este artigo foi originalmente escrito para o Bancada e só depois publicado aqui.)

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