há álbuns eternos, álbuns para a memória. alguns não vivem necessariamente na memória, mas, antes disso, habitam como camada e como personalidade. assumem-se parte da nossa estrutura — abanam, mas, intactos, continuam a morar no silêncio, mesmo quando achamos já não nos lembrar deles; aliás, precisamente quando achamos já não nos lembrar deles. 

para mim, o 10,000 days, de tool, é um desses álbuns. 

adorava conseguir descrever a primeira audição, mas, infelizmente, isso é também apenas uma memória já esfumada. surge, no entanto, como tentativa de entender a música como algo maior que apenas som. algo com propósito, com profundidade. talvez a banda norte-americana me tenha educado precisamente nesse sentido: a esquecer a gentileza, os rodeios e os floreados e a reparar na força e no espaço desautorizado que a música ocupa. é música descontente em ser passiva; cada detalhe tem razão de ser, cada silêncio parece pensado e orquestrado. 

há todo um jogo de significados e misticismo no qual os tool estão envoltos. seja na utilização da sequência de fibonacci numa das músicas ou na estética visual com que se vestem. em 10,000 days, começamos pelo título. surge do próprio cálculo: dez mil dias; dez mil dias que judith marie, mãe de maynard james keenan, esteve paralisada devido a um aneurisma. viria a falecer em 2003, aos 58 anos, três anos antes do lançamento deste álbum. 

é também por isso natural que tenha dado nome a duas músicas — as duas partes de wings for marie que, em conjunto, somam quase dezoito minutos de um luto impossível de nomear mas palpável no arrastar crescente da voz de maynard. 

um destinatário ausente. sem raiva nem tristeza; sem celebração nem alívio. apenas tudo sobreposto, cru, numa cruz, numa orquestra sem o conforto de um acorde final. 

à boleia do mistério, surgem também os sons escondidos. a banda não confirmou nem desmentiu — naturalmente — mas a faixa viginti tres, do latim vinte e três, número associado à sincronização, pode ser usada como camada; sobreposta às duas asas de judith marie compõe um tema oculto do alinhamento inicial, sepultado na matemática cirúrgica da banda. 

por estes dias, 10,000 days não é mais do que um espelho suspenso entre a estranheza e o confronto da adolescência; um braço de ferro entre a distância e a saudade. é o eco de uma versão desarmada e inquieta a tentar entender que a sensibilidade não tem necessariamente de ser delicada — que, como as memórias esfumadas de outrora, pode ser densa, abrupta e silenciosa. 


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