Entre as várias definições que vagueiam por essa internet fora, muitas delas completamente acertadas, talvez a que faça mais sentido, para mim, seja a de que Marc Moulin é, há mais de três décadas, um ‘artesão de jazz‘.

De origem belga, o músico passou os seus primeiros anos de artista a passear Europa fora, com um piano às costas e a mente submersa em melodias que, talvez ele não imaginasse, mas que vieram conquistar e moldar o panorama musical da altura.

A viagem de Marc Moulin é demasiado densa e repleta de paisagens para que uma crónica seja curta e riquíssima em simultâneo – ou talvez eu não o consiga fazer, para já.

O eletro-pop foi porventura o primeiro passo de Moulin que, em trabalhos com a banda Telex, viria a colocar músicas como chamariz das mais variadas discotecas da época, desde a Austrália até ao Brasil.

Durante a década de 1970, o artista belga deu força a uma banda intitulada de Placebo que viria, mais tarde, a dar nome a uma saga de três álbuns tremendamente influenciados por nomes como Miles Davies ou Herbie Hancock. O jazz fusion do grupo era tido com visionário à data, com ritmos pré hip-hop, sintetizadores hipnóticos e sons experimentais.

Ouça aqui o Placebo Sessions, incompleto, criado entre 1971 e 1973 e reeditado em 2006.

Sam’ Suffy, um desses três álbuns, é hoje considerado uma pérola rara, um álbum de culto que chegou a ser procurado por verdadeiros diggers, entre os quais o Dj Shadow, por exemplo.

Mas Marc Moulin não é apenas um ‘artesão do jazz‘, concentrado em melodias sinfónicas e limpas.

A ‘segunda metade’ da carreira do música belga é dedicada, paradoxalmente, à música de ‘eletrónica dançável’ – ainda que Marc fosse o tipo de pessoa que nunca dança.

“Marc não dançava. Aliás, ele praticamente não saía de casa. Tinha uma obsessão pelo som, mas também uma obsessão pela amizade. Gostava de estar rodeado de amigos”, disse Bernard Dobbeleer, amigo do músico.

Seria um dos álbuns da nova carreira de Moulin, no entanto, que viria a dar-lhe todo o reconhecimento internacional dos tempos modernos. Em 2001, Top Secret incluía o single ‘Into the dark‘, uma faceta renovada e surpreendente de Moulin, que o transformou, para a crítica, “de um compositor para um produtor”.

Ouça aqui o álbum Top Secret.

O reconhecimento tardio – ainda que merecido – numa fase mais avançada da carreira não era, porém, o objetivo de Moulin.

Bernard Dobbeleer, que privou com o artista em várias ocasiões, explica mesmo que “Marc não procurava isso [o reconhecimento]”

“Para seres artista, tens que te expor. Mas ele nunca gostou da ideia de se mostrar. Preferia provocar um sorriso do que uma gargalhada, preferia um ‘funk to gangsta rap’ e a descrição aos holofotes”, escreveu o também DJ e jornalista.

Apesar disso, o trilho de Moulin estava traçado. O seu génio nunca o deixou parar. É hoje considerado um visionário musical, que nunca desistiu das suas composições, mesmo sendo um diretor de rádio, na Bélgica.

Seguiram-se álbuns como ‘Entertainment‘, em 2004 e, mais tarde, ‘I Am You‘, onde a evolução de Moulin é por demais evidente. Com as letras a serem escritas pelo seu antigo companheiro Jacques Duval, o último grande álbum do artista é uma ode inundada em melodias belíssimas, todas com o (novo) toque soul de Moulin à mistura.

Ouça aqui os álbuns Entertainment e I Am You.

Há ainda muito da vida de Moulin por descortinar, muita melancolia atípica de um génio que não parou de se auto-convencer que viria a ser exatamente isso – um génio e um exemplo; uma luz brilhante de duas ou três gerações de ouvintes, leitores e amantes de música.

Por fim, a música que me fez chegar tão longe por ele.

Saiba mais sobre Marc Moulin aqui.

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