em tempos, quando as redes sociais caminhavam para o pedestal hoje ocupado, era frequente verem-se publicações ou ensaios sustentados pela dúvida de quem seríamos nós, atores sociais, quando ninguém nos observava. atualmente, onde tudo é alimentado por partilhas, comentários ou algoritmos, a questão assume, para mim, outros contornos — será que ainda sabemos ser alguém quando ninguém vê? 

embora seja uma nuance da modernidade, encontra paralelos palpáveis em estudos já seculares. em 1902, charles horton cooley, sociólogo americano, assinava human nature and the social order onde, entre os demais tópicos, introduzia o conceito de looking-glass self. de uma forma geral, o termo descrevia como os humanos se constroem enquanto indivíduos através das percepções dos outros: como se apresentam, como imaginam os julgamentos e as reações e, no final, como essas impressões são interiorizadas. 

ou seja: o paradoxo das redes sociais não é uma ideia nova; sempre fomos, em parte, feitos do olhar alheio. o que mudou, atualmente, não foi sequer a observação; foi a sua permanência. 

antes, o olhar dos outros era pontual. uma conversa, um encontro ou um julgamento momentâneo dissolvido segundos depois; hoje, é constante, arquivado e recuperável — não precisamos de ser vistos para nos comportarmos como se o estivéssemos a ser. a possibilidade é suficiente. é este desfasamento —  entre o ser visto e o ser contabilizado —  que se intensifica quando trocamos o espelho humano por um sistema mecânico de pixeis ou métricas. passámos, muitas vezes, a moldar as nossas experiências diárias em função da reação gerada no feed, antecipando o julgamento de uma audiência talvez abstrata antes de assimilarmos o que estamos a viver. parece haver uma espécie de edição constante da espontaneidade: escolhemos o ângulo para o desabafo, o tom do comentário ou a imagem que melhor projeta o sucesso. 

no fundo, as redes sociais fizeram hábito da própria arquitetura da prisão de bentham, onde a possibilidade da vigilância constante é até superior ao próprio ato de vigiar. quando foi a última vez que estivemos, genuinamente, sem hipótese de documentar nada? para muitos, creio, essa memória é antiga demais para a lembrarmos com clareza. 

confundimos, hoje, a ausência de audiência com tédio. e o tédio — quase intolerável — assume-se como uma falha a corrigir e não necessariamente como um espaço a habitar. 

ora, é justo questionar se o tédio sem testemunha se tornou, por agora, uma espécie em extinção. não é somente a ação de estar parado — é estar parado e sozinho, ausente da possibilidade de provar a existência desse próprio tempo. ao primeiro sinal de vazio, o reflexo do preenchimento é quase automático: documentar, para que o eco não nos silencie. porém, talvez seja precisamente nesse devaneio sem propósito que nos revelemos — não porque o tédio ou o vácuo sejam produtivos, mas, antes disso, por ser nesse espaço, sem audiência nem urgência, que os pensamentos e as dúvidas se permitam existir. se não deixarmos o tédio respirar, saberemos sequer se ele tem algo a dizer? 

é curioso, no entanto, escrever isto numa plataforma intitulada panopticon. talvez seja o texto a tropeçar na sua própria ironia. como poderia colocar-me no pedestal da moralidade quando, no fim do dia, escolhi um nome que remete, precisamente, para uma arquitetura de vigilância? o que dizer de quem escolhe deliberadamente escrever sabendo que pode ser lido em qualquer momento, por qualquer pessoa? talvez a minha resposta não seja escapar à observação ou à própria validação; mas escolher, dentro dela, o traço da honestidade. talvez a resistência mais autêntica seja aceitar os olhos, mas recusar negociar tudo o que mostramos. 

por fim, talvez a pergunta hoje já não seja se ainda sabemos ser alguém quando ninguém vê — mas se ainda sabemos existir sem a promessa de sermos vistos. 


Related

Privacy Preference Center