em tempos, aprendi que as marcas deixadas em quem escreve não mais desaparecem; eternizam-se numa nota, numa carta de gaveta ou numa simples reticência intencional. é uma ideia bonita, quase assustadora, mas esconde uma linha de montagem mais crua na forma como quem escreve lida com o término das sessões. quando alguém evapora do mapa dos olhares, o reflexo assume uma postura quase mecânica: mais uma linha, uma aresta em forma de parágrafo, até este co-existir em nós, num bloco de texto humano. é o pretexto honesto de que precisamos de organizar o caos, quando, na verdade, estamos só a tentar sepultar um corpo inanimado. a eternidade, por vezes, não é bem homenagem; é, sobretudo, uma moldura da nossa própria proteção; um museu vazio, apenas revisitado por nós. se o espelho nos obriga a encarar a dor, teimamos em desviar o olhar. dizemos até já nem sentir saudade, só pintar a natureza morta como necessidade.
é terrivelmente ingénuo acreditar na estética das palavras como solução para o caos do nosso estômago. parágrafos depois, a verdade despe-se e regressa: o texto foi somente um túmulo, um adereço numa casa quase oca. não nos salvou, como poderíamos antecipar. deu-nos, também ele, uma reticência intencional; um ponto de interrogação: de quem somos, afinal? lá fora, a cidade não quer saber das nossas prosas; não quer saber de quem escondemos entre vírgulas; a vida quer-nos desajeitados, erráticos e ruidosos. podemos até voltar à tela, limar as coordenadas do desnorte, reler as pausas e orgulhar-nos de onde estamos; mas, quando as estrelas viram aposentos, a dúvida volta a assombrar-nos.
no final, quase lúcidos, percebemos que a eternidade é somente uma cela luxuosa. escrevemos para não nos corrigirmos, só para nos sentirmos vivos. combatemos a apatia com a minúcia de uma nota de rodapé, e a pulsação com a cadência de uma rima mal estruturada; queremos dar dignidade à perda, mas não temos estrutura para descer ao chão e ser consumidos pela verdade. se olhamos para a escrita como uma armadura de papel, talvez seja hora de a rasgar. talvez não. fingimos nomes para testar canetas quando, no fim, quem procuramos esteve sempre nestas letras.
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