– Não, agora sem tangas, o demónio mora ali na…
– Olha, cala-te só um bocadinho.

A sério, alguém me diga:
Morde a língua.
Calo ou mostro a ferida?
Gasto no que gosto saliva sem me pesar nos bolsos a guita.
É isto, a “fome de artista”. A sério.
É o Senhor Mistério, como o orçamento do mês que se aproxima.
A mó acima? Nunca vi, e enfrento moinhos durante o dia,
enquanto contenho o ódio que, à noite, coloco na fita.
Distante da foto antiga: um miúdo tão promissor.
A dada altura parece que perdi o norte na vida.
Verdade. Há para aí uma tropa de tipas que, se pode, forma fila
para me ver branco, a esvair-me em sangue, com um corte na pila.
Não vou ter uma morte tranquila.
Sem pressão: colheitas perdidas.
Se não tenho ideias, não chove na vila.

– Entendo a mensagem, mas não entendo o propósito.
– Não te deixes afectar, puto. Tu não bates, mas és o melhor.

Pollockada na tela e contemplo aquela obra-prima.
Reflicto enquanto escorre a tinta:
Atravessamos uma magnífica fase da música,
em que toda a escória roça pimba.
Só cantigas para cair no goto dos putos estúpidos d’hoje
que, pelos vistos, são quem agora suporta firmas.
Não posso cair mas,
das duas uma: ou estou um cota ou sou o último adora escrita.
Agora em horário próprio.
Se me der na telha, trabalho só nas quintas, como um campónio.

– Dá para ver que o amigo tem aqui uma coisa com rimas toantes.
– É aquela rima toante. Sabes. Há pouco eu só queria dizer que…

O demónio mora ali na
porta em frente à porta em frente à minha.
Xiu, chibo.
Xiu, chibo.

O demónio mora ali na
porta em frente à porta em frente à minha.
Xiu, chibo, xiu.
Xiu, chibo.

Ele mora ali na porta em frente
à porta em frente à minha.
(Não tem nada que enganar.)
O demónio mora ali na porta em frente à porta em frente
à minha.

– Na medida em que o meu mal não vem de fora.
– Sim, auto-sabotagem. Sei. Gosto muito. ‘Bora.

Deverei eu ficar?
Até à morgue na fila ou implorar por uma melhora,
fixado no crucifixo enquanto oro a uma hora fixa?
Pois sem firme fé na fria norma frito na chama eterna
sem ouvir aquela voz amiga do Morgan Freeman?
Legião é o meu nome e eu indico onde a porta fica.
O demónio mora ali na porta em frente
à porta em frente à minha. Topas? Siga.
Que eu sou torto até quando esta corda estica depois do nó na dita.
Daqui para fora.
Finda-te.

Morde a língua.
Morde a língua.

O demónio mora ali na
porta em frente à porta em frente à minha.
(É ali na porta em frente à porta em frente à minha.)

O demónio mora ali na
porta em frente à porta em frente à minha.
(É ali na porta em frente à porta em frente à minha, padre. Juro)

Ele mora ali na porta em frente
à porta em frente à minha.
(Isso nem sequer faz de mim especial)

O demónio mora ali na porta em frente à porta em frente
à minha.

Xiu, chibo.
Morde a língua.

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