quão bela, a era do conhecimento. dos conceitos teóricos e da profundidade. antigamente, as pessoas justificavam as falhas pessoais com razões como o feitio, o temperamento e, em muitos casos, por má fortuna. ficavam-se por aí — não havia recurso a termos sociológicos ou psicológicos; as pessoas eram-no, pura e simplesmente. hoje, protegidos pela informação, revestimos o nosso ego de um verniz texturado e apoiamo-nos nessa legitimidade quase técnica dos conceitos. usamos a psicologia não apenas como uma ferramenta para o desenvolvimento, mas também como uma apólice da responsabilidade civil, afetiva e emocional.
para mim, a pergunta não é sobre negar a existência de pesos que não se levantam por vontade; é perceber a razão pela qual, quando ainda existe margem para agir, escolhemos tantas vezes tentar compreender-nos sem nos deslocarmos. por que tendemos, mesmo com ferramentas de mudança nunca antes disponíveis, a usá-las sobretudo como explicação e tão raramente como transformação?
o conforto poderá dizer-nos ser a preguiça, mas, convenhamos, a preguiça não requer assim tanto trabalho como tudo o que se tem visto. as pessoas diagnosticam os seus próprios padrões com precisão e com um esforço estoico e genuíno: leem, refletem e nomeiam com cuidado. mas, por vezes, não agem. talvez por isso a resposta não seja exatamente a preguiça; talvez seja uma outra coisa, mais antiga e dura de admitir — talvez não seja mais do que o próprio medo.
há todo um mapa entre afirmarmos “ser assim” e “vou tentar ser diferente, consciente de que posso falhar”. a primeira postura, por natureza, não arrisca; pelo contrário, protege-se na explicação para qualquer desfecho — mantê-la é somente confirmar o padrão reconhecido e previsto; ser diferente, ou tentar, é até lançar-nos ao abismo; é aceitar a possibilidade da falha sem o refúgio da desculpa no bolso.
talvez seja por estarmos presos nestas dúvidas que teimamos em preferir a explicação ao risco. há no diagnóstico floreado uma ausência de validação pelo resultado — ficamo-nos apenas pela nossa capacidade de nos compreender, algo mais fácil de provar do que testarmos a nossa capacidade de mudança.
isto, claro, não é uma defesa ingénua de que toda a mudança depende apenas da vontade — não consigo ser tão hipócrita e, em boa verdade, talvez eu também faça do medo uma preguiça. há quem lute, genuinamente, contra os próprios automatismos; há quem viva no desgaste deste processo lento, arrastado e muitas vezes invisível, sem as redes ou as certezas do sucesso; de facto, há quem realmente arrisque e se tente sobrepor às explicações; quem abdique do diagnóstico e da garantia de ser surpreendido por si próprio. e eu próprio, no salto alto da minha sinceridade, guardo as explicações à mão, no bolso ou nas notas, prontas para os dias onde a mudança pareça ser substancialmente maior do que eu. isto não é um dedo nem holofotes apontados a alguém — é, sobretudo, um palco comum e transversal, do qual também eu faço parte.
é neste chão sem teto que os conceitos de self-awareness e inteligência emocional se tornaram quase cartões de apresentação; mantos protetores usados como refúgio comportamental. não por não serem importantes — porque o são, claro — mas porque, não raras vezes, caem no vazio. sabemos por que pensamos demasiado, por que nos desligamos ou até por que corremos atrás de alguém cuja pista decidiu abandonar; sabemos exatamente de onde surgem todas estas questões — o que é ótimo.
mas — e então? ficamos estanques no processo.
conhecer não muda; agir sobre esse conhecimento, sim, talvez o faça. assumimos as dores da infância, dos traumas e das relações, por exemplo, mas abraçamo-nos somente à explicação, na esperança de que as ligações se tornem mais humanas e saudáveis. as explicações não travam os nossos erros — as decisões que tomamos a partir delas, talvez o façam.
talvez seja neste nervo onde muitos de nós bloqueamos. teimamos em confundir a informação com progresso e pensamos que, ao nomearmos o padrão, o estamos a alterar; o conhecimento é algo passivo, pouco palpável, enquanto a mudança é um ato tremendamente ativo e corajoso. o objetivo, creio, não deve ser somente o de nos percebermos como humanos, mas — e talvez mais importante — o de nos tornarmos alguém com comportamentos diferentes precisamente porque nos percebemos. talvez o meu salto alto tente até definir a inteligência emocional — não só nos conhecermos, mas evoluirmos para alguém novo porque, finalmente, nos conhecemos.
no fundo, ao preferirmos ver a autópsia negligenciando o risco da cura, estamos a transformar a lucidez num lugar comum de segurança. protegemo-nos do abismo, é certo, mas também nos condicionamos ao fugirmos do movimento. no fim de toda a contabilidade teórica e dos refúgios em conceitos badalados, a verdade continua a ser, a espaços, o que recusamos observar — aquilo que não mudamos acaba, tantas vezes, por nos escolher também.
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