Maradona é considerado por muitos o ‘melhor jogador de todos os tempos’ – ou não fosse ele “El D10s” – mas esse pedestal é ainda mais elevado quando falamos de napolitanos.
Lorenzo Insigne não enverga a camisa 10 do clube, mas carrega o Nápoles no coração desde que nasceu. A cumprir o “único” sonho, agora com 26 anos, o “pequeno mágico” passeou pelas memórias da infância num testemunho concedido ao Players Tribune, onde revela a admiração por Ronaldo, o fenómeno.

À semelhança de uma grande percentagem dos jogadores de futebol profissional, Insigne provém de origens humildes, em Frattamaggiore, uma pequena região da cidade de Nápoles. A bola acompanhou-o desde o berço, mas o sonho de pisar o San Paolo nasceu aos oito anos, motivado pelas peladinhas com os amigos do irmão mais velho. Após uma birra, típica de criança, Lorenzo conseguiu mostrar o seu dom e, por conseguinte, entrar para uma academia de futebol na sua cidade natal.

É aqui que o agora craque recorda Ronaldo, o Fenómeno, a sua inspiração. As suas origens humildes e a falta de oportunidades de trabalho na região levantaram um problema na carreira de Insigne – como em muitos casos do género. O “pequeno” precisava de umas botas para conseguir entrar na academia, mas, em contraponto à enorme paixão do pai por Maradona, Insigne idolatrava o Fenómeno e as suas botas de “génio, prateadas, azuis e amarelas”.

“O único jogador que o meu pai falava era Maradona. Eu cresci com o único mito de ‘El Diego’ e a sua grandiosidade – obviamente ele é uma lenda em todo o mundo. Mas em Nápoles? Em Nápoles? Ele é como Deus. O meu pai queria que eu usasse umas botas lisas, todas pretas, como ele, mas eu dizia: ‘não, tu não percebes pai. Ronaldo é o melhor'”.

Dificuldades à parte, aquele fervoroso adepto napolitano conseguiu satisfazer o desejo do filho e, após quatro tentativas frustradas,  comprar-lhe as míticas ‘R9s’.

A história é perita em contar episódios inspiradores – especialmente no futebol. Insigne é hoje um nome que dispensa apresentações na esfera do desporto rei, mas confessa que foram aquelas mesmas botas que, perante todos os contratempos e obstáculos de Frattamaggiore, o fizeram dar o ‘próximo passo’.

“Foi um sentimento indescritível calçá-las. Na minha cabeça foi como se ‘ok, eu posso ser pequeno e vir de famílias com dificuldades; posso até nem ser suficientemente bom, mas estou a calçar as botas do génio Ronaldo; portanto, um dia, talvez um dia eu possa vir a ser tão bom como ele”, revela.

Apesar do sonho – entretanto realizado – Insigne duvidou várias vezes se conseguiria singrar dentro das quatro linhas. Entre os muitos testes que fez em academias – entre as quais Nápoles, Inter ou Torino – a respostas dos dirigentes era sempre a mesma: “Nós gostamos dele, mas é demasiado pequeno”.

A frieza nas palavras dos italianos é uma das suas principais características, assentes em valores como a honestidade e frontalidade. Aos 14 anos, e rejeitado por todas as escolas, Insigne sentiu-se perdido, certo de que teria de abandonar o trilho que ainda agora iniciara.

A contas com um futuro desconhecido na pequena vila de Frattamaggiore, continuou a jogar futebol na academia da região até que, um ano mais tarde, o Nápoles voltou a aparecer em cena. Eram dezenas de jogadores nas captações do clube mas, por qualquer razão – ou talvez não – Insigne foi um dos escolhidos.

“Quando cheguei à academia foi incrível, uma vez que a minha família sempre foi adepta fervorosa do Nápoles, mas nunca teve capacidade para me levar a ver muitos jogos. Assim que entrei para as camadas jovens, supliquei sempre para ser um dos apanha-bolas, apenas para estar no estádio (…). Aquele sentimento de estar ali, sentir aquela energia enquanto napolitano, é algo que eu não consigo traduzir em palavras. Só pensava: ‘Se eu pelo menos conseguir disputar aqui um jogo, com a camisola do Nápoles, eu posso morrer feliz”.

Quis o destino que a estreia de Insigne com a principal camisola do clube acontecesse fora de portas, em 2010, frente ao Livorno. A honra que sentiu em tal façanha ganhou expressão na sua terra de origem, tendo sido recebido de forma apoteótica. Entre o mar de gente que o esperava com fogos de artifício, bolos ou cartazes, havia uma pessoa especial.

“Ver a cara da minha mãe foi o melhor momento, porque ela maluca por futebol, mais que muitos homens. Hoje em dia chego a casa e ela está a ver a repetição dos jogos do Nápoles, a gritar com a televisão. ‘Mãe, o que estás a fazer? Isso já aconteceu!'”, conta.

Acabado de sair da formação do clube, Insigne não se fixou imediatamente no plantel principal, tendo sido emprestado em dois anos consecutivos, primeiro ao Foggia, da Serie C e, mais tarde, ao Pescara do segundo escalão.

A passagem por clubes de menor dimensão foi especial para o italiano. Além da experiência necessária, cruzou-se com um treinador mediático, Zdeněk Zeman, a “figura retirada de um filme antigo”, como o jogador o descreve.

Apontou 18 golos sob as ordens do treinador checo, que fez questão de o levar para o Pescara na temporada seguinte. Sensível ao pedido do técnico e do jogador, o Nápoles aceitou o empréstimo. Em boa hora, diga-se.

“Marquei 19 golos nessa temporada. Quando a época acabou, tive uma reunião com Mazzarri, o técnico do Nápoles. Ele disse-me: ‘Se queres um lugar aqui, vais ter de o conquistar por ti próprio’, ao que eu respondi que desde que cresci nunca nada me foi dado de volta. Nada me ia parar, sem dúvidas. Conquistei o meu lugar”.

Lorenzo Insigne
Lorenzo Insigne

Lorenzo Insigne cumpriu o seu sonho nessa exacta temporada, tendo apontado o seu primeiro golo no San Paolo contra o Parma, na vitória por 3-1.

“Passaram-se seis anos desde então, e eu continuo a vestir esta camisola e a ter a mesma emoção quando marco um golo pelo Nápoles. Significa muito para mim. Deixa-me orgulhoso por representar a minha cidade. Para mim, é a melhor cidade do mundo”.

Certo é que Nápoles – pese embora todas as má línguas, como em qualquer situação – é um refúgio de onde os grandes atletas não sentem necessidade de partir. Marek Hamšík, por exemplo, é eslovaco e mantém-se no emblema há 11 anos, sendo capitão e o melhor marcador da história do clube – ultrapassou Maradona na presente temporada.

Actualmente o Nápoles trava uma batalha aguerrida com a Juventus pelo título de campeão de Itália, o maior desejo de Insigne, que aconteceu pela última vez em 1989/1990, com Maradona a liderar a equipa.

“Sempre que eu jogo no San Paolo fico com arrepios. Penso no que isto significa para a minha família e em tudo o que eles sacrificaram por mim. (…) O sacrifício deu início a todo este sonho. É por isso que, quando entro no estádio, arrepio-me e penso: ‘Foi aqui que o melhor jogador de todos os tempos jogou. Foi aqui que Maradona jogou.”

As botas agora são apenas um pequeno pormenor da carreira de Insigne, que conseguiu fintar os obstáculos e a sua própria altura para ser, hoje, um dos símbolos do Nápoles. E, “enquanto napolitano”, deve dizer que “há apenas um rei, e o seu nome é Diego”.

“Ronaldo, tiveste excelentes botas. Foste um génio e a minha inspiração. Mas eu sou napolitano, e enquanto isso tenho de dizer que há apenas um rei, e o seu nome é Diego”.

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