É um assunto tão badalado como qualquer novela do futebol, tal é a insistência com que volta à esfera pública. De há uns anos a esta parte, entre os meses de Janeiro e Abril – as fases tipicamente cruciais numa época desportiva – a continuidade de Arsène Wenger ao leme do Arsenal é posta em causa. Se dúvidas houvessem quanto à legitimidade dos adeptos do clube, a ausência do título de campeão da Premier League – que dura há 14 anos – dissipa-as em segundos.
No entanto, numa visão romantizada do futebol – como a minha, (in)felizmente – nem só de títulos vive um clube, ainda que eles sejam a maior bandeira de apresentação.
O futebol – e tudo um pouco, convenhamos – vive, hoje, uma fase em que tudo é demasiado volátil, repentino, de memória curta. Certo fim de semana bajulamos um treinador ou jogador, como no fim de semana seguinte o queremos ‘porta fora’. Passar de ‘besta a bestial’ é o ‘provérbio’ indicado quando falamos deste desporto.
Antes de me debruçar concretamente sobre o Arsenal e Arsène Wenger, quero explicar que não tenciono adoptar uma postura defensiva ou crítica para com o francês, nem tentar menosprezar ou elevar o que quer que seja. Apenas e só exprimir o que, para mim, é importante realçar sobre uma figura histórica do futebol mundial, da Premier League e, claro, do Arsenal.
Pois bem. Ainda que tenha sido criado em 1886, o Arsenal apenas anunciou o seu primeiro técnico oficial onze anos depois, em 1897, de seu nome Thomas Mitchell. Para não incorrer em nenhuma injustiça que a minha (muita, mas talvez não tão assertiva) pesquisa me mostrou, é impossível falar da história do Arsenal sem mencionar Herbert Chapman – eternizado pelo clube com uma estátua no exterior do Emirates. Chapman liderou a equipa durante nove anos, entre 1925 e 1934. Além dos títulos que conquistou – seis, para ser preciso – revolucionou o Arsenal de dentro para fora.
Para lá de Chapman, em 99 anos de história pré-Wenger, os Gunners viram o comandante ser diferente em 24 ocasiões – entre treinadores efetivos e interinos.
Foi então que, a 1 de Outubro de 1996 – curiosamente o dia do meu aniversário, feliz coincidência – Arsène Wenger é anunciado como treinador do Arsenal. O francês chegou a Londres como um autêntico desconhecido, dando inclusive azo a capas de jornais e cartazes que questionavam, em garrafais, “Arsene who?”.
Para mal dos seus pecados – ou bem – o seu currículo trazia ‘apenas’ um título de campeão de França, pelo Mónaco, em 1988, e uma taça do mesmo país, três anos mais tarde. A sua experiência no Japão, apesar de curta, acrescentou dois troféus à sua até então pequena carreira. Em 18 meses, conquistou a Taça do Imperador e a Supertaça do Japão, ao serviço do Nagoya Grampus.
Foi praticamente com ‘uma mão à frente e outra atrás’ que Wenger chegou ao Arsenal, com a difícil missão de rivalizar com clubes como o Liverpool ou o Manchester United. Acontece que, depois de um terceiro lugar na época de estreia, o francês conquistou a dobradinha no ano seguinte, em 1997-1998, ao vencer o campeonato e a taça de Inglaterra.
Mais do que os troféus conquistados ‘rapidamente’, Arsène conquistou os adeptos. Até então desiludidos com o futebol ‘entediante’ praticado pelos Gunners, o francês galvanizou os fãs com uma inovação táctica até então pouco conhecida por terras de Sua Majestade. O seu 4-4-2 clássico, onde pontificavam jogadores como Tony Adams, Patrick Vieira – a primeira ‘exigência’ do treinador – ou Dennis Bergkamp, foi uma novidade em Inglaterra. A técnica ‘excessiva’, o requinte, as constantes movimentações, pressão alta e posse em progressão foram uma ‘lufada de ar fresco’ na Premier League.
O futebol não tem por hábito ser mestre em coincidências, pelo que importa sublinhar que Wenger foi o primeiro treinador não britânico a ser campeão em Inglaterra. Dir-me-ão, numa troca de argumentos interminável, que isso é pouco relevante hoje em dia, mas a verdade é que Wenger foi o primeiro a ‘furar’ caminho para hoje vermos técnicos como Guardiola, Pochettino, Conte ou Mourinho na Premier.
Após três anos sem qualquer troféu conquistado, marcados por uma renovação do plantel que viria a revelar-se preponderante na história recente do clube, o técnico francês logrou nova dobradinha em 2001-2002, novamente com a conquista do campeonato e da FA Cup. É impossível dissociar o Arsenal de jogadores como Thierry Henry, Robert Pires, Sol Campbell ou Fredrik Ljungberg, presentes na ‘era dourada’ dos Gunners no século XXI. Nessa temporada, além do título, os comandados de Wenger fizeram história ao marcarem em todos os jogos do campeonato, tendo permanecido invencíveis em todos os encontros realizados fora do então Highbury Stadium.
Premonição ou não, certo é que, dois anos mais tarde, foi escrita aquela que é, provavelmente, a página mais brilhante da história do clube. Em 2003-2004, o último título de campeão do Arsenal, os Gunners venceram a Premier League sem qualquer derrota – 26 vitórias e 12 empates – com Henry a ser o melhor marcador do campeonato, com 30 golos. A sequência invencível de 49 jogos – que terminou em Old Trafford, num encontro manchado por polémicas relacionadas com a arbitragem, se a memória não me falha – figura como a segunda sequência mais longa das principais ligas, só atrás do AC Milan de 1991 a 1993, ‘produzido’ por Sacchi e com Capello ao leme, que esteve 58 encontros sem perder.
A equipa, conhecida eternamente como ‘Os Invencíveis’, contava com nomes como Seaman, Lehmann, Lauren, Kolo Touré, Campbell, Ashley Cole, Patrick Vieira, Parlour, Edu, Gilberto Silva, Ljunberg, Pires, Fábregas, Bergkamp, Van Persie e, claro, Thierry Henry. Além do feito só de si extraordinário, esta equipa foi ovacionada por todos os adeptos de futebol, tal era a qualidade, intensidade e trocas de bola que apresentavam no relvado.
Passaram-se 14 anos e, como já foi dito, 14 anos sem o título de campeão da Premier League. Nem as quatro taças de Inglaterra conquistadas nesse período (2005, 2014, 2015 e 2017) amenizam as críticas direccionadas – e perceptíveis – a Wenger. O francês vive numa corda bamba constante nos últimos anos à frente do clube.
Rumores ou não, durante os períodos conturbados vividos em Londres e nas restantes cidades onde se respira futebol, Arsène é constantemente apontado ao cargo de outros clubes – desde Barcelona a Paris Saint-Germain, até equipas de ‘dimensão’ mais comedida. Acontece que, entre cartazes a exigir a sua saída e protestos organizados pelos próprios adeptos, Wenger vai continuando de ‘pedra e cal’ no Emirates.
E se o novo posto do francês é no Emirates é, em grande parte, responsabilidade dele próprio. Após mais de 90 anos no mítico Highbury, Wenger potenciou um crescimento na casa dos Gunners, tendo lutado ‘com unhas e dentes’ para esta nova construção, agora com capacidade para 60 mil pessoas. Se esta foi uma ‘desculpa’ utilizada pelo francês para um menor investimento no reforço da equipa – com ou sem sentido, ele não aconteceu – não é menos verdade que estabeleceu uma marca nunca antes vista a nível de faturação. Aliás, o Arsenal é, por estes dias, um dos clubes onde o típico ‘bilhete anual’ é mais caro. Antes do novo Emirates, importa realçar que Wenger exigiu também a construção de novo centro de treinos. À data, em 1999, a equipa dividia o espaço reservado ao treino com uma estrutura duma universidade de Londres, o que levava à ‘expulsão’ do plantel em algumas ocasiões.
Entre as muitas proezas da era Wenger – e que apenas têm relevância para alguns adeptos, como disse mais acima – a verdade é que o Arsenal, nesta temporada, marcou o fim de (mais) um recorde do francês, que conseguiu levar o clube à Liga dos Campeões em 20 (!) anos consecutivos. Se há argumentos contra este facto? Certamente que sim, mas, lá está, não deixa de ser facto.
Esta temporada que ainda decorre, porém, parece ditar a segunda consecutiva sem a presença na maior competição de clubes. Os Gunners parecem uma equipa apática, sem identidade e sem força para lutar por aqueles objetivos que seriam garantidos anos antes. Como vem sendo hábito – e mais uma vez sublinho a legitimidade – os adeptos pedem o abandono do técnico francês, tido como o maior responsável por (mais) uma época de fracasso.
Se os adeptos têm legitimidade para exigir o abandono de Wenger, não será justo, porém, que o técnico francês acredite que consegue dar a volta por cima? É, provavelmente, a sua maior lacuna. Vivem-se tempos conturbados no Emirates, com protestos todas as semanas a exigir a sua demissão, mas Arsène continua confiante que “tem a solução”.
Esta semana, numa reportagem do The Guardian, o jornalista David Hytner descrevia a tristeza que reina no balneário do Arsenal. Há até registos de uma reunião exclusiva dos jogadores, onde um deles – sem se conhecer o nome – ficou lavado em lágrimas quando questionado, pelo próprio filho, a razão “para o Arsenal estar tão mau?”
Parece por demais evidente que os próprios jogadores não acreditam na capacidade do técnico em reverter a situação. A equipa é talentosa, sabe certamente jogar à bola, e está sedenta de conquistas – ou deveria pelo menos.
Exprimindo agora a minha opinião, de forma transparente, há uma coisa em falta no Arsenal há já vários anos. Fibra. Fibra de campeão. Garra. Vontade. Querer e ambição. Mais do que as debilidades do plantel – que as tem – falta a mentalidade vencedora a uma equipa que, verdade seja dita, já não é vencedora.
Gastem-se os milhões que forem necessários, comprem-se jogadores ‘à Wenger’ – com toque de bola, requinte técnico e uma qualidade de passe de excelência – que se o espírito de união não prevalecer, o título de campeão será uma miragem cada vez mais distante. Enquanto adepto de futebol, confesso um gosto especial pelo Arsenal exactamente por essas razões. Por defenderem o espectáculo, por ser uma equipa de futebol positivo, atraente, de classe, mas que, quando é necessário, não sabe jogar ‘sujo’. Desde o pulmão Vieira que o plantel não tem um médio que seja um autêntico ‘monstro’ no meio campo – que me lembre, aliás. O francês, aliava a capacidade física – foi o eterno rival do Roy ‘Pitbull’ Keane – a um toque de bola de excelência, só ao alcance dos predestinados. Se já não se fazem jogadores assim hoje em dia, adaptam-se os que há ao que a equipa exige. E este Arsenal, convenhamos, exige muita coisa.
Honestamente, tenho dúvidas que esta seja a última temporada de Wenger ao leme dos Gunners. Em certa medida, isso deixa-me contente. Apesar de perceber toda a legitimidade de quem almeja por celebrar troféus, acredito que o francês merece uma maior consideração pelo mundo do futebol – particularmente pelos adeptos do Arsenal.
A identidade do Arsenal, conhecida pelos maiores palcos do futebol mundial, é em grande parte da responsabilidade do francês, há 22 anos à frente do clube. Temo que grande parte de quem exige a sua demissão não conheça o Arsenal de outra forma, o que motiva o desejo de mudança, ansiosos por celebrar conquistas. O meu desejo é que o Arsenal volte a essas conquistas ou, pelo menos, a discuti-las até ao limite. Espero que com Wenger, que por tudo o que deu a este desporto, merece abandonar uma casa que criou pelo próprio pé. Resta saber se a sua teimosia é tão elevada quanto a classe que mostrou em outros tempos.
Abandone ou não um cargo até ao início da próxima temporada, a questão será sempre a mesma: Até quando Wenger? Para mim, até sempre!
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