O Manchester United passará, provavelmente, mais um ano sem o título de campeão. Não há, ainda, uma identidade digna desse registo nos Red Devils. Entretanto, encomendem as faixas para os nossos rivais. Eles merecem.

 

Para os amantes de futebol, especialmente da Premier League, o Boxing Day é como que discutir a final da Champions, no mesmo dia, em três horários diferentes.

Há um ano, apesar de não ter visto, festejei a vitória do Man Utd sobre o Sunderland, por 3-1. Curiosamente, o técnico do Sunderland, à data, dava pelo nome de David Moyes, o escolhido para suceder a Alex Ferguson no comando dos Red Devils, em 2013.

Hoje, como há um ano, escrevo enquanto adepto do Manchester United. Não para festejar uma vitória, mas antes para soar um alarme que se torna progressivamente preocupante, à medida que a competição vai avançando.

Se Moyes mereceu o meu apoio enquanto comandante de Old Trafford – mesmo escolhendo Phil Jones para bater penaltis – também Mourinho o terá, até que ele ou alguém que tenha por direito essa responsabilidade decida bater com a porta. Mesmo vendo no Rojo o que o comum adepto de futebol não consegue ver.

A saída de Sir Alex parece tornar-se irreparável a cada época. O mito de que as segundas épocas de Mourinho são sempre melhores que as primeiras começa, também, a desvanecer. Nem tampouco o mega investimento parece solucionar o que de mais grave se vê em campo: não há uma identidade, um carimbo, não há uma estratégia bem vincada na cabeça de cada jogador.

Hoje, no final do encontro frente ao Burnley, que terminou com um empate a duas bolas, o técnico luso voltou a lamentar-se, alegando sofrer “golos de merda” nos últimos desafios e, como se não bastasse, desculpando-se com o facto de “340 milhões em transferências não serem suficientes”.

Quanto dinheiro será preciso para criar uma identidade?

Ainda que o assunto seja dúbio, a resposta deixa de fazer sentido quando Mourinho – sim, ele próprio – se dirige ao investimento rival dizendo que Guardiola comprou “laterais a preço de avançados”, e que, pasmem-se, “os valores que os clubes pedem pelos jogadores quando se trata de negócios com grandes equipas é sempre diferente”.

De uma forma muito simplória, José Mourinho terá razão, como em tantas outras ocasiões, sentado na sala de imprensa. O que é realmente importante, para mim, é que pese embora o investimento idêntico de ambas as partes, o City vai passeando em velocidade cruzeiro, enquanto nós, supostamente um Diabo Vermelho renascido, continuamos a meter água em cada estádio que visitamos.

Até no nosso, valha a verdade.

Apesar de todo o queixume – meu e do Mourinho – a época do United até poderia ser vista como ‘normal’.

Por esta altura, na temporada passada, o Chelsea de Conte liderava com 49 pontos – o United tem, hoje, 43. Há duas temporadas, em 2015/2016, na temporada mágica do Leicester City, os foxes ocupavam o segundo lugar, à vigésima jornada, com 40 pontos. O líder era o Arsenal – vejam lá. Por curiosidade, na época anterior a essa, que viria a terminar com o City campeão, o líder à vigésima jornada era novamente o Arsenal.

Não quis investigar a situação do Manchester United nessas temporadas, perdoem-me, mas o Bleacher Report tem toda a informação necessária, se interessar.

A verdade é que a estatística, por muito relativa que seja, ajuda a explicar que, nesta temporada, nem é tanto o United que é uma equipa cinza, sem ideias, e que não “encara os duelos como deveria”.

Esta pesquisa mostra, pelo contrário, que o City de Guardiola é, pura e simplesmente, de uma galáxia diferente dos demais. Importa notar, com clareza, que o City é hoje a “máquina trituradora” comummente conhecida graças ao técnico catalão – mas isso merecerá, oportunamente, uma dedicatória especial.

Por enquanto, e sem querer alongar-me muito, já que isto não passam de ideias soltas de um mero adepto de futebol, intriga-me ver o Man Utd receber o seu arquirrival, em Old Trafford, e remeter-se a 30 metros em campo; não ter a coragem de assumir o encontro; de discutir o jogo pelo jogo; de mostrar que no Teatro dos Sonhos só há espaço para uma equipa, que deveria ser a nossa.

Entretanto, o Sean Dyche mandou-me um abraço.

Já eu, do alto da minha ingenuidade, mando um abraço a Mourinho.

Com força para que a situação seja revertida o mais rapidamente possível; para que a equipa saiba, em campo, qual é a ideia que todos devem ter; e para que Mourinho saiba, por fim, que o Rojo – e tantos outros – não tem nível suficiente para usar aquele símbolo.

Acima de tudo, um abraço com caráter para fazer mea culpa e assumir, de uma vez por todas, que não dinheiro que valha uma identidade.

O Manchester United teve-a. Bem vincada, por sinal.

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