Dostoevsky dizia, num livro do qual não me recordo o nome, que, em muitas ocasiões, o leitor poderia pensar, ao passear entre as vírgulas e detalhes, que aquilo que estaria a ler poderia ter sido perfeitamente escrito por ele. Confesso que não me recordo exatamente das palavras – até porque, convenhamos, as traduções nem sempre são as mais corretas – mas, a terminar, a frustação e felicidade invadiam o leitor, questionando, numa palavra, “por que razão não fui eu que escrevi isto?”.
Naturalmente que, neste caso concreto, nunca as nossas palavras atingiriam o patamar das redigidas por Carlos Daniel. O assunto, esse, poderia ter sido desenvolvido por nós – ficando muito a dever, como seria de esperar. Em todo o caso, se te identificas com determinadas palavras, personalidades e ideias, tendes a dar-lhes a devida repercussão.
Essas personalidades e ideias foram descritas numa crónica semanal, por Carlos Daniel, no site Bancada. O assunto, como seria de esperar, é futebol. Neste caso, “o melhor futebol”.
O melhor do jogo está nessa intuição que é o fio condutor entre a compreensão do jogo e aquilo que distingue os melhores, a qualidade na tomada de decisão.
“O melhor do jogo está nessa intuição que é o fio condutor entre a compreensão do jogo e aquilo que distingue os melhores, a qualidade na tomada de decisão. É nesse momento, de optar, seja no primeiro toque e no que ele determina, na decisão de guardar a bola ou lhe colocar logo o endereço certo, na alternativa entre acelerar ou travar, que é mais fácil distinguir um bom jogador de um excelente ou mesmo genial”, escreveu o jornalista.
A introdução de Carlos Daniel não faz referência à personagem principal da crónica – não será o futebol? – mas, antes, divaga entre a arte de bem jogar de Iniesta, Messi e todos esses craques que tratam a bola por ‘tu’.
Tal como este, o texto destina-se a “Borja Valero – o craque na sombra”, esse que, durante tantos anos, passou despercebido aos holofotes que ofuscam cada vez mais o futebol.
Hoje, Borja Valero está “finalmente a lutar por títulos como há muito merecia, feito filtro da qualidade de jogo no Inter de Spaletti”.
Formado no Real Madrid, foi camisa oito de Borja que me despertou a atenção, em 2007/2008, num saudoso Maiorca que logrou um sétimo lugar na Liga Espanhola. Ao seu lado, jogadores como Ibagaza, Arango – figura dos maiorquinos e, mais tarde, do Mönchengladbach – ou do letal Guiza, que viria a ser transferido para o Fenerbahçe.
O Football Manager ajudou muito neste processo, confesso.
A experiência em Inglaterra, ao serviço do West Brom, não correu como seria de esperar, mas viria a eternizar-se novamente no país vizinho, desta feita no Villareal.
Orquestrou um Submarino Amarelo – qual George Martin – ao lado de outros tantos maestros que davam pelo nome de Cazorla, Senna, Cani e (ainda) Bruno Soriano.
Seguiram-se cinco anos em Itália, nos Viola, onde mostrou a forma como respira verdadeiramente futebol, “em particular no inesquecível primeiro ano de Paulo Sousa”.
“Apenas me interrogava como poderia continuar ignorado pelos maiores emblemas, desses que lutam por vitórias grandes, desconhecedores talvez de que os melhores perfumes estão por regra nos frascos mais pequenos”.
Uma interrogação pertinente.
É mais que competente ou eficaz no que faz, é belo. E a estética é a dimensão dos artistas.
Esta temporada, Borja Valero é um dos pilares do Inter de Spaletti – João Mário que o diga – e começa, finalmente, a chamar a atenção para mais um craque silencioso que, de livro no cérebro, comanda todos os momentos do jogo.
“Joga a médio, com a mesma qualidade em qualquer dos lugares do meio, seja como bússola que o orienta o jogo na posição 6, a dar linhas de passe sucessivas mais à frente ou a criar verdadeiramente nas costas dos avançados como um velho 10. É mais que competente ou eficaz no que faz, é belo. E a estética é a dimensão dos artistas”.
Leia a crónica completa aqui.
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