O futebol é manifestamente rico no que toca a histórias inspiradoras – e desoladoras – sobre a realidade deste desporto. Numa fase em que os milhões gastos em transferências e salários de jogadores enchem manchetes de jornais, ou que as suspeitas de corrupção estão na ordem do dia, há quem, por outro lado, respire a essência do futebol.
Isaac tem 14 anos e, como a grande maioria dos miúdos dessa idade, um sonho relacionado com a ‘redondinha’. Contudo, pese embora as suas modestas raízes, este pequeno jovem liberiano tem como inspiração Howard Webb, o antigo árbitro britânico.
A história de Isaac chegou ao conhecimento público como muitas outras, como que por ‘coincidência’. Um adepto ferrenho do Newcastle, Ged, natural de Consett, Coundy Durham, viajou até à África Ocidental para trabalhar como voluntário numa instituição de caridade, a Mary’s Meals.
Numa das muitas viagens de solidariedade, até à cidade de Gbarnga, com o objectivo de distribuir refeições pelas comunidades em extrema dificuldade, Ged encontrou Isaac. Assim que se conheceram, ‘exaltados’ pela paixão pelo futebol, Isaac revelou o impacto que um treinador de futebol local teve na sua vida, de nome Timothy ‘Gapsi’ Kromah.
Aos nove anos, sentado na relva enquanto assista a um treino de uma equipa local, Isaac captou a atenção deste treinador. Assim que soou o apito inicial de um exercício de Gapsi, o ‘pequeno árbitro’ despertou: saltou da relva, pegou num material que por ali estava e, de súbito, transformou-se num árbitro auxiliar.
A naturalidade e profissionalismo exibidos por uma criança de 14 anos, sem formação ou conhecimento aprofundado sobre o futebol, deixaram Gapsi estupefacto.
“Decidi acompanhá-lo. Depois desse treino, fui ao encontro dele e perguntei-lhe o nome. (…) Mostrou-me a área onde vivia. Então, perguntei-lhe onde estava o pai dele. Assim que disse isso, começou a chorar. Ele é uma ‘criança abandonada na comunidade’. Perdeu o pai muito cedo e a mãe é incapacitada. Não consegue andar nem cinco minutos antes de desmaiar”, revela Gapsi, citado pela BBC.
Isaac tornou-se no árbitro oficial da equipa, sendo responsável por apitar em todos os treinos. Gapsi, o treinador, fez questão de sublinhar a todos os jogadores a postura de respeito e aceitação que deveriam manter perante Isaac Popo – a alcunha atribuída pelo som do seu apito.
O crescimento e aprendizagem de Isaac depressa o levaram a ‘maiores palcos’. Ao fim de algum tempo, o pequeno jovem de 14 anos estava a apitar jogos de escalões superiores. Se à primeira ocasião – como é apanágio, aliás – os ‘homens de barba rija’ duvidaram das suas capacidades, depressa perceberam as virtudes de Isaac.
“Ao fim de 10 minutos pedi para darem o apito a outra pessoa. Eles revoltaram-se! Viram que o pequeno rapaz era bom. Então começamos a levá-lo para jogos maiores. Grandes jogos, mesmo. Chegou a apitar o maior dérbi da região”, conta Gapsi.
“A única razão para ele não apitar federado é a sua idade. Tentamos registá-lo na Associação de Futebol da Libéria, mas só é possível aos 18 anos. Se lhe derem condições, vejo-o ir muito longe, como Howard Webb, o grande Howard Webb. Aliás, ele pode excedê-lo, já que é o seu exemplo. Ele diz que quer ser como o Howard Webb, ou até melhor que ele”.
A ambição de Isaac levou-o a uma órbita superior. Através da rede de contactos de Ged, o mítico árbitro inglês ficou a conhecer a sua história.
“Esta é uma história incrível, que me emocionou. Passei alguns anos na Nigéria, em 2009, a trabalhar para a FIFA, e conheço a obsessão desses países pela Premier League, mas é inacreditável que alguém como Isaac tenha sequer ouvido falar de mim, quanto mais ter-me como exemplo”, disse o árbitro.
Por esta altura, Howard Webb trabalha nos Estados Unidos mas, quando regressou a casa para as celebrações de Natal, enviou uma das suas fardas de árbitro oficiais, com as insígnias da FIFA, uma cópia do seu livro e um bilhete a desejar o melhor a Isaac.
Além disso, juntou também o cartão amarelo que usou na final do Mundial de 2010, na África do Sul, que opôs a Espanha à Holanda.

A felicidade estampada no rosto de Isaac quando recebeu os presentes era contagiante, conta Ged, que viu toda a população de Gbarnga celebrar o momento.
“Orei ao Deus Todo Poderoso hoje, quando recebi estes presentes, para estar com Howard Webb um dia e interagir com ele. Quero-lhe agradecer pelos presentes, e gostava que me desse alguns conselhos sobre o jogo”, confessou Isaac.
O próximo passo é providenciar um encontro entre ambos, espera Ged. Entretanto, Isaac ‘Popo’ pode ser encontrado a apitar jogos de futebol na Libéria, dos miúdos aos graúdos. Os cinco dólares que recebe por cada 90 minutos ajudam-no a si e a à sua família.
Com um equipamento da FIFA uns bons tamanhos acima, Isaac admoesta jogadores com o mesmo cartão amarelo que o seu herói usou por 14 vezes, na final do Mundial de 2010, na África do Sul.
“À parte dos milhões e milhões, o que há para não gostar no futebol?”
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