O Östersund caiu aos pés do Arsenal nos dezasseis avos de final da Liga Europa, mas este clube da Suécia, que só agora despertou a curiosidade dos adeptos de futebol, tem (quase) tanto tempo como o que Wenger leva à frente dos Gunners. Ou quase tão pouco.
Na ressaca do sorteio da segunda maior competição de clubes da Europa, a boa campanha do Östersund despertou a curiosidade dos mais entusiastas adeptos, que começaram a questionar-se quem era, afinal, este clube e este treinador.
Em 2010, há oito épocas, a palavra mais ouvida pelos gélidos corredores da equipa sueca dava pela nome de ‘impossível’, a assinalar a descida ao escalão mais baixo do futebol daquele país. A descida de divisão afectou o orgulho de Daniel Kindberg, o ex-tenente sueco e então presidente do clube. Perante a sua vontade em abandonar o cargo após mais uma desilusão, foram os próprios jogadores a apelar para mais uma batalha que viria a tornar-se de sucesso.
“Sentamo-nos e conversamo – seis, sete pessoas. Apagamos as emoções dos nossos corações e perguntamo-nos porquê. Porque estamos no clube? Trabalhamos sem receber, para quê tanto esforço? O que queremos ver? O que queremos no futebol com as nossas ambições?”, conta Kindberg à BBC.
A ‘reunião de equipa’ marcou o início de uma caminhada que atingiu o seu auge na passada quinta-feira, em pleno Emirates, frente ao Arsenal.
“Criamos valores e ambição de estarmos na elite do futebol europeu. As pessoas pensavam que éramos lunáticos. Talvez estivessem certos”, conta.
A verdade é que, lunático ou não, Kindberg alcançou aquilo que traçou como objetivo, há oito anos atrás. Entre as soluções apresentadas pelo presidente e amigos chegados, apareceu um nome que, conta, “era único, a combinação perfeita”.
Dava pelo nome de Graham Potter, hoje apelidado do melhor treinador inglês dos tempos modernos, mas em tempos um lateral ‘modesto’, com um passado sem grande brilho por equipas como o Birmingham, Stoke, Southampton ou West Brom, mas com a cabeça inundada em conceitos e ideias de jogo.
Abandonou os relvados aos 30 anos, com a certeza de que o “jogo o expulsaria mais cedo ou mais tarde” e de que contratos com equipas como o “Barcelona ou Manchester United” nunca chegariam. Após os cursos de treinador tradicionais, Potter acabou por se qualificar em várias áreas de ensino e a leccionar na Universidade de Hull.
Depois de muito erros e anos de aprendizagem, pensou que seria a altura indicada para se “testar no mundo real”.
“Eu pensei que precisava de me testar no mundo real, mas não conseguiria oportunidades em Inglaterra. Estava fora do jogo. Então, o Östersund contactou-me. O presidente teve uma ideia e uma filosofia para fazer algo diferente no clube”, revela.
A segunda parte da parceria que colocou o Östersund nas bocas do mundo estava contratada em Dezembro de 2010, tendo chegado à Suécia um mês depois. Apesar da tristeza nas palavras de Potter quando recorda a chegada à Suécia, com episódios de que as pessoas da cidade “não acreditavam nem gostavam do clube”, o sucesso chegou rapidamente.
A “falta de história, de tradição e cultura” – que se revelou na falta de adeptos no estádio – foi ultrapassada com duas subidas de divisão consecutivas, passando do quarto para o segundo escalão da Suécia.
“Tivemos que criar uma identidade, um estilo de jogo que cativasse as pessoas e não se inserisse na tradição e cultura da Suécia”, revela Potter.
Seguiram-se várias contratações de jogadores ‘esquecidos’ da alta roda do futebol britânico, mas conhecidos por Potter e motivados em fazer parte de um clube que não se rege pelos ‘valores tradicionais’ de uma equipa de futebol.
[column size=’1/2′]Os resultados demonstrados dentro das quatro linhas foram construídos maioritariamente fora delas. E não foram fora delas, nos treinos, mas fora de qualquer relvado. O clube desenvolveu uma ‘academia de cultura’, onde os jogadores confraternizavam todos juntos, entre danças e actuações de canto perante uma plateia. A ideia, confessam, era de que isso aumentaria a sua confiança e desempenho. Como seria de esperar, Potter foi um dos ‘cabeças de cartaz’ dessas peças.
“Os jogadores jogam futebol um par de horas por dia, mas são seres humanos no resto do tempo. Então, se podermos ajudar nesse aspecto, será benéfico para eles. Nós usamos esses métodos para conquistar pontos, mas há efeitos que podem desenvolver a pessoa em termos de autoconsciência, de motivação, de empatia. Começas a descobrir as pessoas de maneira diferente. Vês quem está mais confortável em situações tipicamente desconfortáveis, como eles respondem perante isso e como podes trabalhá-los e ajudá-los a desenvolver”, explica Potter.
Métodos à parte, a verdade é que na primeira temporada que o emblema com apenas 22 anos de história disputou a principal liga sueca, em 2016-2017, o Östersund logrou um respeitoso oitavo lugar. O ponto alto, contudo, foi a conquista da Taça da Suécia, frente ao Norrkoping, à data campeão em título, por esclarecedores 4-1.
Essa vitória, “um dia especial”, como conta Potter, valeu ao gélido emblema o apuramento para a Liga Europa ou, por outras palavras, a concretização que uns “lunáticos” sonharam anos antes. Do último escalão da Suécia até vencer o Galatasaray, o Hertha de Berlim ou defrontar o Arsenal foram apenas oito anos. Oito anos marcados pela notável ascensão daquilo que não é mais apenas um clube de futebol. É uma família e uma cidade que trocam de coração entre si.
Esta família tipicamente fria tem feito por aquecer vários corações por esse mundo fora. Atualmente, o Östersund estabeleceu uma parceria com o Darfur United, uma equipa composta por jogadores do ‘Campeonato do Mundo de Refugiados’ que se realizou na cidade sueca. Além disso, o emblema sueco doa uma percentagem da totalidade dos salários para apoiar os cerca de 100 alunos e treinadores do Darfur.

Dificuldades à parte – Potter chegou a conduzir durante nove horas só para ver um jogador atuar – hoje, o Englishman é um homem feliz e realizado, à semelhança de Daniel Kindberg, dois dos principais obreiros de tamanha façanha.
O Östersund caiu aos pés do Arsenal nos dezasseis avos de final da Liga Europa, mas ainda bem que este pequeno (grande) clube da Suécia mostrou ao mundo (do futebol) quão belo o futebol pode ser.
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