Na minha ‘biblioteca digital’, perdida entre os favoritos dos diversos browsers que fui utilizando, há muitos recortes que quero recuperar à medida que me for possível.
Hoje transcrevo uma entrevista feita por adeptos de futebol a Henrik Larsson, publicada pela FourFourTwo, em fevereiro passado.
Enquanto crescia, qual a sua maior inspiração no futebol?
Samuel Lawrence-Joshua, Londres
Eu tinha um vídeo do Pelé que costumava ver frequentemente. Quando chegava da escola, punha o vídeo a correr e via-o antes de ir para o treino. Cheguei a conhecê-lo por duas ocasiões: em 1998 e uns anos antes. Tirei uma fotografia com ele, mesmo tendo eu já 41 ou 42 anos!
Quão perto esteve de desistir do futebol quando estava difícil entrar nas equipas mais novas do Hogaborgs?
Anders Karlsson, Landskrona
Desistir nunca foi realmente uma opção. Foram tempos difíceis – eu era muito baixinho, os outros miúdos cresciam mais rápido do que eu – mas eu gostava demasiado de futebol para desistir. Muitos jovens jogadores desistem pelo número de obstáculos que aparecem, mas precisas de ser persistente para ser bem-sucedido.
Aos 18 anos fui realizar testes ao Benfica, em Portugal, quando o Sven-Goran Eriksson era o treinador, depois, aos 21, estava a trabalhar para uma empresa onde carregava camiões com vegetais. Não era, de todo, o que eu queria fazer, mas depois apareceu o interesse do Helsingborgs na minha contratação. Foi fantástico. O resto é história.
Chegou realmente a empurrar um jornalista para uma piscina?
Steve McIntyre, Hamilton
Sim! [risos] Isso aconteceu quando podias brincar um bocadinho com os jornalistas locais. Não fiz isso sozinho: estávamos um grupo de jogadores e decidimos empurra-lo para um momento divertido. Ele estava completamente vestido – caso contrário não tinha piada! Por acaso aquele jornalista tinha-me criticado quando eu era mais novo, mas não foi por isso que o atiramos. Hoje em dia, quando conversamos, ainda se ri desse episódio.
A Suécia terminou em 3º no primeiro Mundial que disputou, em 1994. Essa geração é lembrada como uma das melhores equipas da Suécia?
Carl Jones, Bristol
Na história recente, sim. Sempre que um Mundial se aproxima, as pessoas falam dessa geração. Eu tinha 22 anos e disputar um Mundial era um sonho de criança, por isso ficar em terceiro foi fantástico. Marcar no jogo de decisão do terceiro lugar foi sensação fantástica. Também bati um dos penalties nos quartos de final, contra a Roménia.
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Eu tinha 22 anos e disputar um Mundial era um sonho de criança, por isso ficar em terceiro lugar foi fantástico.
Quão bizarro foi ter que recorrer a um tribunal, de fato e gravata, para ter permissão de deixar o Feyenoord e assinar pelo Celtic?
Lisa Muir, Glasgow
Foi estranho! De alguma forma, o Feyenoord interpretou uma cláusula do meu contrato de uma maneira, mas tanto eu como o meu representante conhecíamos a verdadeira intenção dessa cláusula. Na altura não fiquei contente com o clube, claro, mas resolveu-se – hoje tenho boas relações com as pessoas do clube.
As coisas nem sempre foram fantásticas para mim no Feyenoord, tanto que eu viajei para a Escócia ‘azedado’. Mas, assim que aterrei, fiquei feliz. O Wim Jansen estava lá. Ele tinha-me levado para a Holanda inicialmente, e percebia perfeitamente aquilo que tinha comprado.
Como se sentiu quando o seu passe falhado permitiu ao Chic Charnley marcar o golo da vitória na sua estreia pelo Celtic?
Scott Collins, Edimburgo
Não foi propriamente o melhor início para mim no Celtic, mas tenho de ‘culpar’ o Darren Jackson. Ele não queria a bola no pé, mas depois acabou por fugir! Acontece. Depois do jogo disse aos jornalistas, ‘a culpa é minha’, mesmo sabendo que não era o caso.
Hoje culpo o Darren Jackson – e já lhe disse isso também! Mas são coisas que acontecem. Acho que, na altura, lidei bem com a situação.
Qual é a sua memória favorita dos tempos do Celtic?
Michael Kearney, via Twitter
Tenho muitas! O dia em que interrompemos a série de 10 títulos consecutivos do Rangers; o dia em que asseguramos a ‘tripla’ e o dia em que alcançamos a final da Taça UEFA. Provavelmente esqueci-me de outras 50 memórias. Eu não conhecia muito o Celtic quando cheguei; na altura chegamos cerca de sete reforços, e nenhum de nós entendia realmente a pressão que era representar aquele clube.
Chegamos numa altura em que não podíamos permitir que o Rangers vencesse 10 títulos consecutivos – teriam sido a primeira equipa a fazê-lo. Nenhum de nós compreendia a dimensão disso, mas foi o que nos manteve focados. Se estivéssemos lá há mais tempo e soubéssemos que tínhamos mesmo de parar a série vencedora do Rangers, provavelmente teria sido muito mais difícil.
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Eu não conhecia muito o Celtic quando cheguei. Na altura chegamos cerca de sete reforços, e nenhum de nós entendia realmente a pressão de representar aquele clube.
Qual foi o melhor treinador que teve na sua carreira?
Lindsay Hamilton, Stirling
Tive bastantes bons treinadores: Wim Jansen, Martin O’Neill, Frank Rijkaard e Alex Ferguson, só para dizer alguns. O Martin sabia exactamente como deixar toda a gente motivada. Lembro-me de quando estávamos prestes a pisar o relvado de Anfield, em Liverpool, na época em que chegamos à final da Taça UEFA – tínhamos empatado 1-1 no Celtic Park, por isso estávamos obrigados a marcar. A palestra que ele deu antes do jogo fez com que tudo se afundasse para mim. Disse para mim mesmo, ‘foda-se, não terei arrependimentos depois deste jogo!’
Em 1999, apareceu numa foto, em Lyon, com parte da perna praticamente pendurada. Essa lesão foi tão má quanto parecia?
Damon Main, via Facebook
Arruinou completamente a minha potencial carreira enquanto modelo – sempre me disseram que tinha excelentes pernas! [risos] Ainda tenho um bocado de titânio na perna. Logo depois de a partir, fiz duas coisas. Primeiro, era um árbitro alemão, portanto disse-lhe em alemão, ‘acho que parti a perna’, e assim que a levantei, ela estava pendurada na direcção errada.
Depois, enquanto estava deitado relvado, contei os meses para o Europeu. Isto aconteceu em Outubro, e o Euro 2000 era no verão seguinte. Esse era o meu objectivo, e acabei por conseguir jogar. Mas, percebam isto: eu fico contente por ter partido a perna em 99. Se tivesse acontece em 87 ou 79, eu provavelmente estaria acabado.
Depois de partir a perna regressou melhor que nunca. Como é que isso aconteceu?
Kevin Cherry, Edimburgo
Houveram muitas pessoas que fizerem todos os possíveis para que eu regressasse um jogador melhor: Bill Leach, o cirurgião, os fisioterapeutas Brian Scott e Kenny McMillan, Graham Quinn, o massagista, e o preparador físico Jim Hendry.
De repente vi-me obrigado a lutar por simples coisas na vida que todos temos como garantidas. Não me parece que qualquer pessoa que não passe por isso perceba completamente a situação. Essas coisas fizeram-me querer lutar ainda mais para regressar, para jogar futebol e dar tudo o que tinha.
Na sua primeira época depois da lesão, ganhei a Bota de Ouro. Quão orgulhoso está disso?
Ben Shimmin, Manchester
Nenhum jogador escandinavo tinha conseguido fazer isso, e nós tivemos alguns bons jogadores. Marquei 53 golos, 35 deles na Liga. Estou muito orgulhoso disso, mas nunca conseguiria tê-lo feito sem os meus colegas de equipa: Chris Sutton, Tom Boyd, Alan Thompson, Dider Agathe, Regi Blinker, Jackie McNamara and Lubo Mravcik. Todos eles fizeram parte da Bota de Ouro.
Uma vez li que o seu parceiro de ataque preferido era o Chris Sutton, apesar de ter jogador com vários avançados brilhantes. Isso é verdade?
Shawn Armstrong, North Shields
Sim, é verdade. O Chris e eu fizemos uma excelente dupla de ataque, com ele a ser o meu ‘escudo’. Nós compreendíamo-nos muito bem e tínhamos uma excelente relação, assim como as nossas famílias. Ainda mantemos essa relação.
Qual foi a coisa mais estranha que emaranhou nas suas rastas?
James Moore, Londres
Defesas! Estavam sempre a tentar agarrá-las. As rastas eram fáceis de manter: acordava e bastava mover a cabeça. Quando ficavam demasiado compridas, cortava-as. Acho que, no final, apenas fiquei demasiado velho para elas.
Porquê a celebração da língua?
Ameen Rabbani, Glasgow
Aconteceu, simplesmente. Vi uma fotografia depois dum jogo em que o tinha feito e pensei, ‘porque não?’. Entretanto comecei a receber inúmeras cartas de pais a queixarem-se de que os filhos corriam de um lado para o outro com a língua de fora. Como isso chegou a um ponto em que realmente me incomodava, decidi parar.
Jogou ao lado de Zlatan Ibrahimovic de 20 anos, no Mundial de 2002. Ele já tinha esta postura na sua primeira grande competição internacional?
Jimmy Fairbairn, Uxbridge
Era mais ingénuo na altura, mas, ainda assim, uma excelente personalidade. Tinha as qualidades, mas não tinha as ‘peças todas juntas’. Na altura perguntaram-me quão bom ele poderia ser, ao que respondi que apenas dependeria dele, tinha tudo o que era preciso. Agora é um dos melhores avançados do mundo, e foi-o durante anos.
A final da Taça UEFA perdida para o FC Porto, em 2003, foi o pior dia da sua carreira?
André Freitas, Guimarães
Sim, foi. Tivemos o Porto na mão – marquei por duas vezes, mas não conseguimos vencer. Foi muito difícil. Ganhar um troféu europeu pelo Celtic teria significado muito para nós e para os adeptos. Houveram muitos adeptos que viajaram sem bilhete – apenas queriam estar ali, em Sevilha, para nos ver com o troféu… [pausa, com emoção na voz] mas nós não conseguimos fazê-lo. Essa equipa do Porto acabou por vencer a Liga dos Campeões no ano seguinte. É apenas a prova do quão bom eles eram naquele ano.
A decisão de deixar o Celtic para assinar pelo Barcelona foi difícil?
John Boyd, Dumfries
Foi difícil, sim, mas eu sentia que se não marcasse em alguns jogos a imprensa iria dizer ‘ele não é o mesmo Larsson’ e eu queria sair enquanto estava na mó de cima. Ainda tinha um ano de contrato e, para acabar com a especulação, queria dizer o mais cedo possível que não iria renovar – não queria que nada fosse mal interpretado.
Haviam mais de 30 clubes interessados e eu estava interessado em jogar em Espanha. Sempre tive o sonho de jogar em algum lugar mais quente. Não queria lutar para fugir à despromoção, por isso estaria agradecido em jogar numa equipa de meio de tabela. Mas depois apareceu o Barça.
Depois de perder a final da Liga dos Campeões pelo Arsenal, em 2006, Thierry Henry disse que ‘as pessoas iriam falar sobre o Eto’o e o Ronaldinho, mas que deveriam falar sobre os jogadores que fizeram a diferença, como Henrik Larsson, com duas assistências’. O que sentiu?
Jonny Ritchie, Fraserburgh
Foi fantástico para mim ouvir isso de um jogador como Henry. Saltar do banco e contribuir para a reviravolta foi excepcional. Quando o Eto’o e o [Juliano] Belleti marcaram, eu senti ‘sim!’ Enquanto criança tu sonhas em vencer a Liga dos Campeões. Foi o melhor momento da minha carreira, sem qualquer dúvida.
Ronaldinho descreveu-o como o seu ídolo. Como era a sua relação com ele?
Andy Evans, Hereford
Ele costumava brincar todos os dias, ‘hey, ídolo, ídolo!’ Era fantástico! Não era apenas o que ele fazia dentro das quatro linhas; temos de perceber a pressão que ele sofria por jogar num clube como o Barcelona. Tiro-lhe o chapéu por ainda ser capaz de acordar, todos os dias, com um sorriso na cara. É um ser humano de excelência.
Tinha consciência do quão bom Lionel Messi se poderia tornar quando chegou ao plantel principal do Barcelona?
Jim Savage, via Twitter
Lembro-me de dizer ao Giovanni Van Bronckhorst quando estávamos na Ásia, num estágio de pré-época: “Quem é ele?’ Quando o vi no treino pensei ‘WOW’. O toque curto, o equilíbrio – estava lá tudo, mesmo naquela altura. Já era bom, mas agora é fantástico! Naquele tempo, ele não tinha as mesmas qualidades para fazer tudo o que faz agora, mas, às vezes, no treino, pensavas “WOW, o que é isto?!’
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Enquanto criança tu sonhas em vencer a Liga dos Campeões. Foi o melhor momento da minha carreira, sem qualquer dúvida.
Porque decidiu abandonar o Barcelona?
Xavier Tort, Tarragona
Eu não queria passar mais tempo no banco de suplentes. Sentia que ainda tinha alguns anos para jogar a bom nível. Foi por isso que voltei para a Suécia. Mais, o meu filho tinha 10 anos, na altura, e eu queria dar-lhe a oportunidade de chamar ‘casa’ a algum lugar. Foi a melhor decisão. Ganhei a Taça da Suécia pelo Helsingborgs, mas, mais importante, quando olho para o meu filho sinto que esta é a casa dele, onde ele conheceu os amigos e onde está a aproveitar a vida dele.
O seu filho, Jordan, está actualmente no Helsingborgs mas tem sido ligado ao Rangers. Iria deserdá-lo se ele assinasse por eles? [Entretanto, Jordan Larsson transferiu-se para o NAC, da Holanda]
Steven O’Kane, Dublin
Ele nunca faria isso! [E em relação ao Celtic?] Isso é com ele e com o que ele quiser fazer. Se for bom o suficiente, certamente terá a sua oportunidade. Ele é promissor, isso é certo, mas a pressão é maior para ele do que para qualquer jovem sueco de 19 anos. Na primeira metade da época ele foi fantástico, mas quando as coisas correm menos bem o facto de ser meu filho não ajuda. Ele é forte o suficiente para lidar com essas situações, apesar de tudo.
Arrepende-se de ter passado apenas dois meses no Manchester United, em 2007?
Paul Kay, Frodsham
Sim, é o único arrependimento que tenho na minha carreira. Deveria ter ficado, assim significaria que teria uma medalha de vencedor da Premier League, e teria ficado por mais uma temporada. Contudo, eu ainda tinha contrato com o Helsingborgs e eu sinto que, quando assinas um contrato, deves respeitá-lo.
Era tudo muito profissional no United. Quando tive que ir ao baptismo do meu sobrinho, o clube organizou tudo para eu poder ir depois de um jogo. O Manchester United é muito responsável com os seus jogadores.
Qual foi o melhor golo que marcou?
Anthony Moore, Londres
Tenho de dizer aquele ‘chapéu elegante’, no Celtic Park, contra o Rangers. Esse golo é especial também pelo túnel ao Bert Konterman. Depois, o guarda-redes Stefan Klos começou a sair da baliza, mas a bola estava destinada a entrar assim que saiu do meu pé direito. As pessoas ainda falam muito desse golo!
Acha que passou demasiado tempo da sua carreira na Escócia, apesar dos feitos fantásticos que alcançou?
Tom, via Facebook
Não, acho que não. Eu joguei as maiores competições do futebol – a Liga dos Campeões e a Taça UEFA, os Campeonatos da Europa, os Mundiais – e marquei golos em todos eles. Depois, aos 35 anos, mostrei que ainda conseguia jogar ao mais alto nível no Man United, mesmo não estando no pico da minha forma.
[As passagens pelo Barcelona e Man Utd foram para provar alguma coisa?]
Não. Provei-o ao marcar três golos no Campeonato do Mundo de 2002, e mesmo no Euro 2004, acho que fui um dos melhores avançados. Assinei pelo Barcelona e as pessoas, de repente, começaram a questionar-se que ‘talvez ele não seja assim não tão mau’. Se entenderes bem o que é o futebol, sabes que eu fui um bom avançado.
Jogou em alguns dos derbies mais emocionantes do futebol: Ajax-Feyenoord, Celtic-Rangers, Barcelona-Real Madrid. Qual é o maior, a nível de emoção?
Jun Kaloustian, via Facebook
O Old Firm, sem dúvida. O barulho era incrível! Se estivéssemos uns metros de distância, no relvado, tínhamos dificuldades em ouvir-nos. [Maior que El Clasico?]
Sim. O Old Firm era agitado, mas era fantástico quando ganhavas, e eu ganhei mais do que os que perdi. Penso que tenha marcado 15 golos em 30 jogos – muito bom!
Gostaria de treinar o Celtic, ou acha que isso poderia arruinar o seu status por lá?
Anthony, via Twitter
Desde que eu continue a fazer o meu trabalho, estarei sempre ligado ao Celtic, mas eles têm um excelente treinador. Falaram comigo sobre o lugar há cerca de dois anos, mas o timing não era o melhor. Aqui no Helsingburgs têm havido altos e baixos, mas faz tudo parte do cargo. Tens de aprender a lidar com isso. As minhas ambições, enquanto técnico, são as mesmas que tinha enquanto jogador: tornar-me no melhor possível e chegar às grandes equipas, às grandes ligas.
Originalmente em Inglês, FourFourTwo.
https://www.youtube.com/watch?v=LMt_vCidSsA
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